Card que viraliza atribui sete decisões ao STF; a Cultura checou uma a uma
As sete alegações têm lastro em decisões reais e documentadas. Três delas, porém, são descritas de forma imprecisa na peça que circula, e a imprecisão muda o sentido.

Uma montagem que circula em redes sociais reúne sete acusações contra ministros do Supremo Tribunal Federal, pareando cada magistrado a quem teria sido beneficiado por sua decisão. A peça não traz fonte, data nem número de processo. A Rádio Cultura 96.5 FM verificou item por item.

O resultado: os sete fatos existem e estão documentados em decisões públicas. Mas o card usa o verbo "anulou" em situações que foram, na verdade, suspensões provisórias, e atribui a uma pessoa aquilo que atinge outra. Segue a checagem.
| O que é | Montagem que circula em redes sociais atribuindo sete decisões a ministros do STF |
| Alegações | 7 |
| Checadas por | Rádio Cultura de Lavras 96.5 FM |
| Fonte no card | Nenhuma. A peça não traz fonte, data nem número de processo |
O placar da checagem
- 3 conferem integralmente
- 3 conferem, com ressalva que o card omite
- 1 é impreciso: troca “suspendeu” por “anulou”
- 0 são invenção. Todas nascem de decisões reais
Linha do tempo das decisões
As sete decisões citadas pelo card, na ordem em que aconteceram



As condenações do ex-presidente Lula


como a peça pareia
| O que o card diz | “Ele anulou TODAS as condenações dele, há 5 anos.” |
| Quem decidiu | Edson Fachin |
| Quando | 8 de março de 2021 |
| O que de fato ocorreu | Fachin declarou a 13ª Vara Federal de Curitiba incompetente para julgar os casos do triplex do Guarujá, do sítio de Atibaia e do Instituto Lula, e anulou as condenações. O Plenário confirmou em abril de 2021, por 8 votos a 3. |
| A ressalva | Não houve absolvição. A anulação foi por incompetência do juízo, e os processos seguiram para a Justiça Federal do Distrito Federal. |
A multa de R$ 10,3 bilhões da J&F


como a peça pareia
| O que o card diz | “Ele ANULOU a multa de R$ 10,3 bilhões da empresa dele.” |
| Quem decidiu | Dias Toffoli |
| Quando | 20 de dezembro de 2023 |
| O que de fato ocorreu | Toffoli suspendeu a multa do acordo de leniência da J&F com o Ministério Público Federal, firmado na Operação Greenfield. A decisão é liminar, provisória, e ainda depende de referendo do Plenário. |
| A ressalva | Em maio de 2026 o grupo pediu a suspensão definitiva e o arquivamento. Até hoje a multa está suspensa, não anulada. É aqui que o card erra o verbo. |
O sigilo da empresa ligada a Toffoli


como a peça pareia
| O que o card diz | “Ele anulou a quebra de SIGILO da empresa que este tem participação.” |
| Quem decidiu | Gilmar Mendes |
| Quando | fevereiro de 2026 |
| O que de fato ocorreu | Gilmar anulou a quebra de sigilo bancário, fiscal e telemático da Maridt Participações, aprovada pela CPI do Crime Organizado do Senado, apontando desvio de finalidade: a comissão foi criada para investigar facções e milícias. |
| A ressalva | A empresa é da família de Dias Toffoli, com os irmãos dele como sócios. Não é do próprio ministro, como o card sugere. |
O sigilo quebrado na CPMI


como a peça pareia
| O que o card diz | “Ele ANULOU a quebra de sigilo dele aprovada em CPMI.” |
| Quem decidiu | Flávio Dino |
| Quando | março de 2026 |
| O que de fato ocorreu | Dino concedeu liminar parcial no Mandado de Segurança 40.781 e suspendeu a quebra de sigilo bancário e fiscal aprovada pela CPMI do INSS. Considerou irregular a votação em bloco, sem análise individual de cada requerimento, e mandou votar de novo, caso a caso. |
| A ressalva | O beneficiado não é o presidente Lula, e sim o filho dele, o empresário Fábio Luís Lula da Silva. |
O fundo que comprou o resort


como a peça pareia
| O que o card diz | “Ele ANULOU a quebra de sigilo do fundo que comprou o resort ligado a este.” |
| Quem decidiu | Gilmar Mendes |
| Quando | 19 de março de 2026 |
| O que de fato ocorreu | Gilmar anulou a quebra de sigilo do fundo Arleen, aprovada no dia anterior pela CPI do Crime Organizado a requerimento do senador Sergio Moro. Apontou reiteração de ato já barrado pela Corte e aprovação em bloco, sem fundamentação individual. |
| A ressalva | O fundo comprou, em 2021, a participação da Maridt Participações no resort Tayayá, no Paraná. |
A investigação jornalística e o sigilo de fonte


como a peça pareia
| O que o card diz | “Ele SUFOCOU investigação jornalística e quebrou sigilo de fonte.” |
| Quem decidiu | Alexandre de Moraes e Flávio Dino |
| Quando | 2026 |
| O que de fato ocorreu | O jornalista maranhense Luís Pablo Conceição Almeida publicou três textos sobre o uso regular de veículo oficial pela família de Flávio Dino. Dino o acusou de perseguição. A apuração foi determinada por Alexandre de Moraes, e a Polícia Federal cumpriu busca na casa de Raimundo Cutrim, apontado como fonte. |
| A ressalva | Envolve dois ministros, não um. O Comitê para a Proteção de Jornalistas e os jornais O Globo, Folha e Estadão criticaram a medida. O Globo classificou a quebra do sigilo de fonte como inconstitucional. |
O pedido de nulidade


como a peça pareia
| O que o card diz | “Ele pediu NULIDADE do levantamento de mensagens contra este.” |
| Quem decidiu | Paulo Gonet, procurador-geral da República |
| Quando | 1º de setembro de 2026 |
| O que de fato ocorreu | Gonet pediu a nulidade do relatório da Polícia Federal que detalha a relação entre o ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, e o ministro Alexandre de Moraes. Sustenta que André Mendonça determinou as diligências de ofício, sem provocação do Ministério Público, e que aprofundar sobre integrante da Corte exigiria autorização do Plenário. |
| A ressalva | Gonet também é citado nas mensagens do relatório. |
O que fica
Nenhuma das sete alegações é invenção. Todas nascem de decisões reais, assinadas, com data e número de processo. O que a peça faz é apagar as nuances que sustentam ou fragilizam cada uma delas, e é justamente nessas nuances que mora a diferença entre uma decisão técnica e um favorecimento. Circular o card sem essa leitura é ficar com metade da informação.
A Rádio Cultura procurou, por meio das assessorias, os gabinetes dos ministros citados e a Procuradoria-Geral da República. O espaço para manifestação segue aberto.
Fontes consultadas: Supremo Tribunal Federal, Agência Brasil, Consultor Jurídico, JOTA, Migalhas, CNN Brasil, O Tempo, CartaCapital, Congresso em Foco, O Povo, Poder360 e Comitê para a Proteção de Jornalistas.
Foto da capa: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil.