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Card que viraliza atribui sete decisões ao STF; a Cultura checou uma a uma

As sete alegações têm lastro em decisões reais e documentadas. Três delas, porém, são descritas de forma imprecisa na peça que circula, e a imprecisão muda o sentido.

Por Redação Rádio Cultura · 04/09/2026, 18:30
Direção Geral e de Jornalismo: Erlandson Araujo
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Card que viraliza atribui sete decisões ao STF; a Cultura checou uma a uma

Uma montagem que circula em redes sociais reúne sete acusações contra ministros do Supremo Tribunal Federal, pareando cada magistrado a quem teria sido beneficiado por sua decisão. A peça não traz fonte, data nem número de processo. A Rádio Cultura 96.5 FM verificou item por item.

Peça que circula em redes sociais, checada pela Rádio Cultura. Reprodução
Peça que circula em redes sociais, checada pela Rádio Cultura. Reprodução

O resultado: os sete fatos existem e estão documentados em decisões públicas. Mas o card usa o verbo "anulou" em situações que foram, na verdade, suspensões provisórias, e atribui a uma pessoa aquilo que atinge outra. Segue a checagem.

O que éMontagem que circula em redes sociais atribuindo sete decisões a ministros do STF
Alegações7
Checadas porRádio Cultura de Lavras 96.5 FM
Fonte no cardNenhuma. A peça não traz fonte, data nem número de processo

O placar da checagem

  • 3 conferem integralmente
  • 3 conferem, com ressalva que o card omite
  • 1 é impreciso: troca “suspendeu” por “anulou”
  • 0 são invenção. Todas nascem de decisões reais

Linha do tempo das decisões

As sete decisões citadas pelo card, na ordem em que aconteceram

2021
8/3
Fachin declara a 13ª Vara de Curitiba incompetente e anula as condenações de Lula. O Plenário confirma em abril, por 8 a 3.
2023
20/12
Toffoli suspende a multa de R$ 10,3 bilhões do acordo de leniência da J&F. Decisão liminar, ainda sem referendo do Plenário.
2026
fev
Gilmar Mendes anula a quebra de sigilo da Maridt Participações, empresa da família de Toffoli, aprovada pela CPI do Crime Organizado.
mar
Flávio Dino suspende a quebra de sigilo aprovada pela CPMI do INSS. O alvo era Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente.
19/3
Gilmar anula a quebra de sigilo do fundo Arleen, que comprou a participação da Maridt no resort Tayayá. Requerimento era de Sergio Moro.
Moraes determina apuração contra o jornalista Luís Pablo, que escreveu sobre carro oficial usado pela família de Dino. PF faz busca na casa da fonte.
Setembro
1/9
Gonet pede a nulidade do relatório da PF sobre a relação entre Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes.
01CONFERE

As condenações do ex-presidente Lula

Edson Fachin
Edson Fachin
Lula
Lula
Recorte do card,
como a peça pareia
O que o card diz“Ele anulou TODAS as condenações dele, há 5 anos.”
Quem decidiuEdson Fachin
Quando8 de março de 2021
O que de fato ocorreuFachin declarou a 13ª Vara Federal de Curitiba incompetente para julgar os casos do triplex do Guarujá, do sítio de Atibaia e do Instituto Lula, e anulou as condenações. O Plenário confirmou em abril de 2021, por 8 votos a 3.
A ressalvaNão houve absolvição. A anulação foi por incompetência do juízo, e os processos seguiram para a Justiça Federal do Distrito Federal.
02IMPRECISO

A multa de R$ 10,3 bilhões da J&F

Dias Toffoli
Dias Toffoli
J&F
J&F
Recorte do card,
como a peça pareia
O que o card diz“Ele ANULOU a multa de R$ 10,3 bilhões da empresa dele.”
Quem decidiuDias Toffoli
Quando20 de dezembro de 2023
O que de fato ocorreuToffoli suspendeu a multa do acordo de leniência da J&F com o Ministério Público Federal, firmado na Operação Greenfield. A decisão é liminar, provisória, e ainda depende de referendo do Plenário.
A ressalvaEm maio de 2026 o grupo pediu a suspensão definitiva e o arquivamento. Até hoje a multa está suspensa, não anulada. É aqui que o card erra o verbo.
03CONFERE, COM RESSALVA

O sigilo da empresa ligada a Toffoli

Gilmar Mendes
Gilmar Mendes
Dias Toffoli
Dias Toffoli
Recorte do card,
como a peça pareia
O que o card diz“Ele anulou a quebra de SIGILO da empresa que este tem participação.”
Quem decidiuGilmar Mendes
Quandofevereiro de 2026
O que de fato ocorreuGilmar anulou a quebra de sigilo bancário, fiscal e telemático da Maridt Participações, aprovada pela CPI do Crime Organizado do Senado, apontando desvio de finalidade: a comissão foi criada para investigar facções e milícias.
A ressalvaA empresa é da família de Dias Toffoli, com os irmãos dele como sócios. Não é do próprio ministro, como o card sugere.
04CONFERE, COM RESSALVA

O sigilo quebrado na CPMI

Flávio Dino
Flávio Dino
Fábio Luís Lula
Fábio Luís Lula
Recorte do card,
como a peça pareia
O que o card diz“Ele ANULOU a quebra de sigilo dele aprovada em CPMI.”
Quem decidiuFlávio Dino
Quandomarço de 2026
O que de fato ocorreuDino concedeu liminar parcial no Mandado de Segurança 40.781 e suspendeu a quebra de sigilo bancário e fiscal aprovada pela CPMI do INSS. Considerou irregular a votação em bloco, sem análise individual de cada requerimento, e mandou votar de novo, caso a caso.
A ressalvaO beneficiado não é o presidente Lula, e sim o filho dele, o empresário Fábio Luís Lula da Silva.
05CONFERE

O fundo que comprou o resort

Gilmar Mendes
Gilmar Mendes
Fundo Arleen
Fundo Arleen
Recorte do card,
como a peça pareia
O que o card diz“Ele ANULOU a quebra de sigilo do fundo que comprou o resort ligado a este.”
Quem decidiuGilmar Mendes
Quando19 de março de 2026
O que de fato ocorreuGilmar anulou a quebra de sigilo do fundo Arleen, aprovada no dia anterior pela CPI do Crime Organizado a requerimento do senador Sergio Moro. Apontou reiteração de ato já barrado pela Corte e aprovação em bloco, sem fundamentação individual.
A ressalvaO fundo comprou, em 2021, a participação da Maridt Participações no resort Tayayá, no Paraná.
06CONFERE, COM RESSALVA

A investigação jornalística e o sigilo de fonte

Alexandre de Moraes
Alexandre de Moraes
Flávio Dino
Flávio Dino
Recorte do card,
como a peça pareia
O que o card diz“Ele SUFOCOU investigação jornalística e quebrou sigilo de fonte.”
Quem decidiuAlexandre de Moraes e Flávio Dino
Quando2026
O que de fato ocorreuO jornalista maranhense Luís Pablo Conceição Almeida publicou três textos sobre o uso regular de veículo oficial pela família de Flávio Dino. Dino o acusou de perseguição. A apuração foi determinada por Alexandre de Moraes, e a Polícia Federal cumpriu busca na casa de Raimundo Cutrim, apontado como fonte.
A ressalvaEnvolve dois ministros, não um. O Comitê para a Proteção de Jornalistas e os jornais O Globo, Folha e Estadão criticaram a medida. O Globo classificou a quebra do sigilo de fonte como inconstitucional.
07CONFERE

O pedido de nulidade

Flávio Dino
Flávio Dino
Alexandre de Moraes
Alexandre de Moraes
Recorte do card,
como a peça pareia
O que o card diz“Ele pediu NULIDADE do levantamento de mensagens contra este.”
Quem decidiuPaulo Gonet, procurador-geral da República
Quando1º de setembro de 2026
O que de fato ocorreuGonet pediu a nulidade do relatório da Polícia Federal que detalha a relação entre o ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, e o ministro Alexandre de Moraes. Sustenta que André Mendonça determinou as diligências de ofício, sem provocação do Ministério Público, e que aprofundar sobre integrante da Corte exigiria autorização do Plenário.
A ressalvaGonet também é citado nas mensagens do relatório.

O que fica

Nenhuma das sete alegações é invenção. Todas nascem de decisões reais, assinadas, com data e número de processo. O que a peça faz é apagar as nuances que sustentam ou fragilizam cada uma delas, e é justamente nessas nuances que mora a diferença entre uma decisão técnica e um favorecimento. Circular o card sem essa leitura é ficar com metade da informação.

A Rádio Cultura procurou, por meio das assessorias, os gabinetes dos ministros citados e a Procuradoria-Geral da República. O espaço para manifestação segue aberto.

Fontes consultadas: Supremo Tribunal Federal, Agência Brasil, Consultor Jurídico, JOTA, Migalhas, CNN Brasil, O Tempo, CartaCapital, Congresso em Foco, O Povo, Poder360 e Comitê para a Proteção de Jornalistas.

Foto da capa: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil.

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