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Jornalismo

Duda Salabert é atacada ao fiscalizar mineração em área da União sem concessão; ponto já foi alvo da Operação Rejeito

Parlamentar e engenheiro ambiental foram cercados por três homens ao checarem denúncia de extração de minério em terreno da União, na divisa de Belo Horizonte com Nova Lima; a Polícia Federal acompanha o caso.

Por Erlandson Araujo · 05/09/2026, 11:51
Direção Geral e de Jornalismo: Erlandson Araujo
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A deputada federal Duda Salabert (PSOL-MG) e o engenheiro ambiental Felipe Gomes foram cercados e agredidos por três homens, segundo o relato dos dois, ao fiscalizarem, na noite de quinta-feira (3), uma denúncia de extração ilegal de minério às margens da rodovia MGC-356, atrás do BH Shopping, na divisa entre Belo Horizonte e Nova Lima. O terreno pertence à União e não tem concessão a nenhuma mineradora. É esse dado que tira o caso da alçada comum: a Polícia Federal acompanha a investigação.

O que aconteceu

A denúncia chegou a Felipe Gomes por volta das 23h de quinta-feira (3): uma retroescavadeira retirava minério do local. Os dois foram até lá e chegaram por volta das 23h40. O ataque se estendeu à madrugada de sexta.

Foram abordados primeiro por dois homens. A frase que ouviram, segundo o relato, não deixa dúvida sobre o que era aquilo:

Nós te pegamos!

o que os agressores disseram, segundo relato da deputada

Levaram socos e chutes. Um terceiro homem apareceu em seguida, vindo da parte baixa do terreno, e fechou o cerco. Em meio à agressão, a deputada afirma ter ouvido outra pergunta:

Por que você insiste em fazer isso?

o que os agressores disseram, segundo relato da deputada

A região vista de cima

Sobrevoo da região onde a deputada foi atacada, às margens da MGC-356, atrás do BH Shopping, na divisa de Belo Horizonte com Nova Lima. Imagens: Google Earth
Sobrevoo da região onde a deputada foi atacada, às margens da MGC-356, atrás do BH Shopping, na divisa de Belo Horizonte com Nova Lima. Imagens: Google Earth

O trecho fica entre os bairros Belvedere, Buritis e Vila Castela, encostado na área urbana. A mancha de solo exposto que aparece no vale é o tipo de cicatriz que a extração deixa, embora não seja possível separar por imagem o que é lavra do que é terraplenagem urbana.

A mesma área em imagens de satélite de 2020 e 2024. Sentinel-2 cloudless por EOX, com dados Copernicus, CC BY 4.0
A mesma área em imagens de satélite de 2020 e 2024. Sentinel-2 cloudless por EOX, com dados Copernicus, CC BY 4.0

O ponto já foi alvo da Operação Rejeito

Segundo Felipe Gomes, aquele ponto é recorrente para extração ilegal e já foi alvo da Operação Rejeito. Duda Salabert denuncia há anos a exploração irregular na região, e a área acumula histórico de anos de extração.

A Operação Rejeito foi deflagrada pela Polícia Federal em setembro de 2025 e, segundo a corporação, revelou um esquema de mineração ilegal em Minas com ramificações dentro de órgãos públicos, entre eles a Secretaria Estadual de Meio Ambiente, a Agência Nacional de Mineração, o Iphan e o Iepha. Foram 22 ordens de prisão e 79 mandados de busca. A PF estimou em R$ 1,5 bilhão o lucro do grupo. Numa fase seguinte, a investigação apontou que integrantes do esquema espionaram magistrados federais, chegando a comprar imóveis no prédio onde juízas moravam.

Não há, até aqui, ligação estabelecida entre os agressores da deputada e os investigados naquela operação. O que existe é o mesmo endereço e o mesmo tipo de crime.

O relato à imprensa

Ao falar com jornalistas nesta sexta-feira (4), a parlamentar detalhou os minutos do ataque. Contou que entregou o próprio celular acreditando tratar-se de assalto. O aparelho foi levado, e nem assim a abordagem terminou.

E aí eu pego meu celular e dou, vai que é roubo de celular apenas. Ele pega o meu celular e fala: mas não, não, não, nós vamos resolver isso aqui lá dentro, é lá dentro

Duda Salabert, deputada federal (PSOL-MG)

Eu tinha convicção de que iriam me matar ali. Eles estavam muito frios, tranquilos

Duda Salabert, deputada federal (PSOL-MG)

Ela relata que um dos homens mandou o outro pegar "o cano", "o ferro", e que foi tratada "como se eu fosse a criminosa". Os dois reagiram e conseguiram escapar. Felipe Gomes foi espancado. Ela desceu correndo e pulou um barranco para alcançar a via e pedir socorro.

A retroescavadeira saiu do local

Depois do ataque, foi registrada em vídeo uma cegonha carregando a retroescavadeira usada na extração. O equipamento que motivou a fiscalização deixou a área.

Os ferimentos

Duda Salabert teve o ombro direito deslocado e luxação em uma das pernas, além de ferimentos pelo corpo. Foi atendida no Hospital Mater Dei, em Nova Lima, e recebeu alta. Felipe Gomes levou chutes na cabeça e no corpo e teve o celular arremessado.

Quem são os dois agredidos

Duda Salabert é deputada federal por Minas Gerais pelo PSOL e candidata à reeleição. Professora de formação, construiu a atuação parlamentar em torno da pauta ambiental. É dela que vem parte das denúncias sobre extração irregular de minério na região metropolitana de Belo Horizonte.

Felipe Gomes é engenheiro ambiental, coordena a área ambiental do gabinete da deputada e é candidato a deputado estadual pelo PSOL. Depois da agressão, declarou que segue fiscalizando a mineração ilegal.

O que dizem as autoridades

A Polícia Militar foi acionada, fez buscas na região e não localizou ninguém até a conclusão do registro. A ocorrência foi inicialmente classificada como lesão corporal. A assessoria da deputada a classifica como tentativa de homicídio.

A Polícia Civil de Minas Gerais conduz a investigação e expediu guias para exames periciais. A Polícia Federal acompanha o caso, já que a área é da União. Até o fechamento desta matéria, nenhum suspeito havia sido preso e não havia identificação de empresa ou responsável pela extração no local.

Nota da direção

A Rádio Cultura de Lavras manifesta solidariedade à deputada Duda Salabert e ao engenheiro ambiental Felipe Gomes, e repudia a agressão sofrida pelos dois.

Fiscalizar denúncia de crime ambiental é trabalho legítimo, de parlamentar, de imprensa e de cidadão. Quem responde a esse trabalho com violência não ataca uma pessoa. Ataca o direito de todos de saber o que se passa no próprio território.

A emissora entende que o episódio não pode terminar como lesão corporal comum. Há três agressores a identificar, uma extração em terreno da União sem concessão a apurar e uma retroescavadeira que saiu do local depois do ataque. A pergunta que os próprios agressores fizeram, por que ela insiste em fazer isso, é a que mais interessa responder: a quem incomodava aquela fiscalização. Cabe à Polícia Civil, à Polícia Federal e ao Ministério Público chegar à autoria. Investigação encerrada sem responsáveis é convite para o próximo ataque.

Fontes: Estado de Minas, Poder360, O Tempo, Observatório da Mineração, declarações da deputada à imprensa, Jornal E, Por Dentro de Minas e ND Mais.

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