Lavras foi a "cidade do bonde" por 56 anos, e os dois carros vieram de Hamburgo
Quando chegaram da Alemanha, o povo empurrou os bondes até o trilho no braço. Eles venciam a ladeira da estação, viraram ponto de encontro e só pararam em 8 de novembro de 1967. Do sistema ficou o registro de três postes nas esquinas e uma pergunta sem resposta.

Quem chegava a Lavras de trem descia numa estação lá embaixo, no vale, e tinha pela frente uma ladeira comprida até o centro da cidade. De mala na mão, de sacola, de criança no colo. Foi para resolver exatamente esse problema que Lavras ganhou, ainda no começo do século passado, uma coisa que quase nenhuma cidade do interior do Brasil teve: bonde elétrico.
E não foi por pouco tempo. O bonde circulou por aqui de 1911 a 1967, 56 anos seguidos, e ficou conhecido em toda Minas Gerais. Lavras era a cidade do bonde.
Dois carros vieram de Hamburgo, e o povo empurrou até o trilho
Quem construiu a linha foi a Estrada de Ferro Oeste de Minas, a EFOM, em 1910. A ferrovia encomendou dois carros abertos, de 11 bancadas e dois eixos, à Waggonfabrik Falkenried, de Hamburgo, na Alemanha. Foi a mesma fábrica que, naquele mesmo ano, fez bondes para Natal e para Vitória.
Os carros atravessaram o oceano e subiram até aqui. E aí acontece a cena que dá gosto de imaginar: na chegada a Lavras, o povo da cidade empurrou os bondes para cima do trilho, no braço. A fotografia desse momento está guardada no acervo do Museu de Lavras.
O serviço foi inaugurado em 21 de outubro de 1911. Para o embarque, a cidade construiu uma elaborada estação de granito na Praça Barão de Lavras, no centro. A linha tinha três quilômetros de extensão e bitola métrica, e os dois carros, numerados 1 e 2, traziam a frente no estilo Siemens e as letras "EFOM" pintadas bem à vista.

Não era só um jeito de subir a ladeira
Aqui está a parte que a ficha técnica não conta e a memória conta. O bonde de Lavras não era só transporte. Era diversão e era ponto de encontro.
Nas fotos antigas do sistema aparecem escolares que claramente não estão com pressa nenhuma de descer do carro. Aparece o bonde com a placa de destino marcando "CRUZEIRO". Aparece um descarrilamento na Avenida Pedro Salles que ficou descrito, depois, como "coisa de garoto".
E aparece até o comércio se localizando pelo bonde. Uma propaganda antiga da barbearia Salão Elite anunciava que a casa ficava "em fremte à est. de bonds", com erro de grafia e tudo, porque na Lavras daquele tempo bastava dizer isso para todo mundo saber exatamente onde era.
Três donos em um ano só
Em janeiro de 1931, a Rede de Viação Sul Mineira e a Estrada de Ferro Oeste de Minas se juntaram na Rede Mineira de Viação, e o "EFOM" da frente dos carros virou "RMV".
Sete meses depois, em agosto de 1931, o bonde saiu da mão da ferrovia e passou para a Prefeitura Municipal de Lavras. Daí em diante o que se lê na testa dos carros, nas fotos, é "PML". A sigla demorou a mudar: por muitos anos os veículos continuaram andando com o símbolo antigo da RMV.
Por volta de 1940 a cidade demoliu a estação de espera de granito da Praça Barão de Lavras.
Os bondes azuis que Belo Horizonte mandou, e que Lavras devolveu
Em junho de 1963, Belo Horizonte encerrou o seu sistema de bondes. O Prefeito de lá, Jorge Carone Filho, doou dois carros de dez bancos ao Prefeito de Lavras, Maurício Ornelas Souza. Eram os bondes 55 e 69, construídos nos anos 1930.
A Prefeitura aposentou os dois velhos alemães, renumerou os mineiros como 3 e 4, pintou os dois de azul e colocou tudo na rua em 20 de julho de 1963, data escolhida a dedo, porque era o 95º aniversário da elevação de Lavras a cidade. Teve inauguração festiva e tudo.
Só que não pegou. Segundo uma carta do Museu de Lavras datada de 15 de maio de 1980, o uso dos bondes vindos da capital "não foi aprovado na Câmara de Lavras". Em 1965 os carros 3 e 4 voltaram para Belo Horizonte, e os dois alemães de 1910, que já tinham mais de meio século de estrada, voltaram ao serviço.

8 de novembro de 1967
Foi nesse dia que o bonde de Lavras fez a última viagem. Existe uma fotografia que se diz ser justamente dessa viagem derradeira, no acervo da Prefeitura.
Depois vieram tirar os fios elétricos da rua. Um dos carros Falkenried, aqueles mesmos de 1910, foi restaurado e colocado em exposição em frente à estação de trem. Ficou lá até o centenário da cidade, comemorado em julho de 1968.
E é aqui que a história para, sem ponto final. Sobre o bonde restaurado, o pesquisador que levantou tudo isso escreveu uma frase só: o paradeiro atual é desconhecido.
Quem juntou essa história
Quase tudo o que se sabe hoje sobre o bonde de Lavras foi reunido pelo americano Allen Morrison (1934-2019), que passou a vida documentando bondes, trens leves e trólebus da América Latina em 26 países. Publicou "The Tramways of Brazil: A 130 Year Survey" em 1989 e manteve, a partir de 1998, o site tramz.com, apontado pela Associação Americana de Geógrafos como o melhor do ano em 2005. Ele estudou os bondes de 38 cidades brasileiras, e Lavras é uma delas. O texto dele sobre a cidade foi traduzido para o português por Geovani Németh-Torres e está no portal História de Lavras.
As fotografias que ele reuniu vieram do Museu de Lavras (rebatizado Museu Bi Moreira em 1983), do Jornal de Lavras, da Prefeitura, das coleções de Ricardo Resende Coimbra, do Siemens-Museum de Munique e do americano Donald Nevin, entusiasta de trens que visitou Lavras em 1965 e fotografou o bonde. Morrison desconfiava que várias daquelas fotos tinham sido tiradas pelo próprio Bi Moreira.
E fica registrada uma nota de vizinhança que quase ninguém conhece: Bom Sucesso, a uns 50 quilômetros daqui, também teve bonde elétrico, entre 1930 e 1950.
O que ainda está de pé na rua
Quando Morrison publicou o levantamento, ele anotou que restavam pelo menos três postes da antiga fiação do bonde espalhados pela cidade: um na Rua Sant'Ana, na esquina com a Rua Desembargador Alberto Luz, duas quadras ao norte da Praça Barão de Lavras; um na Praça Dr. Augusto Silva, no ponto de táxi em frente ao Hotel Vitória; e um no alto da Rua Francisco Salles, no ponto de ônibus perto da padaria Indaiá.
Isso foi escrito há anos. A Rádio Cultura não conferiu, poste por poste, se os três continuam lá.
O que a gente ainda quer saber
Fica faltando o principal: onde foi parar o bonde que a cidade restaurou em 1968? Ele ficou exposto em frente à estação, e depois some do registro.
Quem se lembra de andar de bonde em Lavras, quem tem foto de família com o carro no fundo, quem guarda recorte de jornal, ingresso ou lembrança do dia em que ele parou, e quem souber dizer se os postes ainda estão nas esquinas, pode procurar a redação da Rádio Cultura. História de cidade se remonta assim, um pedaço de cada vez.
Mais histórias da cidade no Programa Revista da Cidade, na Rádio Cultura de Lavras 96.5 FM, de segunda a sexta, das 11h às 14h.