No Dia do Árbitro, o Brasil tem Margarida para homenagear e a Máfia do Apito para não esquecer
Celebrado em 11 de setembro, o Dia do Árbitro lembra a fundação da primeira escola de árbitros do país, em 1941, e uma história que vai do ídolo Margarida ao escândalo da Máfia do Apito.
O 11 de setembro é o Dia do Árbitro Esportivo no Brasil. A data foi escolhida em homenagem à fundação da primeira escola de árbitros do país, em 11 de setembro de 1941, e foi oficializada pela Lei municipal 14.485, de São Paulo, sancionada em 2007. Depois, a data se firmou no país inteiro.
É a única função em campo que não tem torcida. O árbitro entra para não ser notado e, quando é notado, quase sempre é para ouvir desaforo dos dois lados ao mesmo tempo.
Margarida apitava com o corpo inteiro, e o país parava para ver
Jorge José Emiliano dos Santos, o Margarida, nasceu no Rio em 19 de março de 1954 e aprendeu a apitar aos 13 anos, vendo jogo na areia de Copacabana. Antes de chegar ao profissional, passou anos no futebol de praia e no futebol feminino. A estreia veio em Flamengo x Volta Redonda, no Campeonato Carioca de 1988.
O que veio depois não teve igual: passos coreografados para marcar falta, gestos de dança, sorriso aberto para o jogador que vinha reclamar. O juiz virou atração. Margarida foi parar no Hebe, no Viva a Noite, no Passa ou Repassa, n'A Praça É Nossa e n'Os Trapalhões.
E teve o lado que nunca foi piada. Margarida foi um dos primeiros árbitros assumidamente gays do futebol brasileiro, numa época em que arquibancada, vestiário e imprensa não perdoavam. Aguentou tudo isso e continuou apitando do jeito dele, sem baixar a cabeça e sem largar a profissão. Morreu em 21 de janeiro de 1995, aos 40 anos.
O apelido virou herança: o árbitro Clésio Moreira dos Santos adotou o mesmo nome em homenagem a ele.
Margarida transformou o sujeito mais odiado do campo no mais querido, e não apitou um jogo a menos por isso.
Do outro lado da linha, o apito que tinha preço
Em 23 de setembro de 2005, uma reportagem do jornalista André Rizek, na revista Veja, escancarou o maior escândalo de arbitragem da história do futebol brasileiro. Segundo a reportagem, os árbitros Edílson Pereira de Carvalho e Paulo José Danelon recebiam para entregar resultados combinados com os sites de aposta Aebet e Futbet.
O preço de um jogo entregue ficava entre R$ 10 mil e R$ 15 mil.
O Superior Tribunal de Justiça Desportiva anulou 11 partidas do Brasileirão apitadas por Edílson, que tiveram de ser jogadas de novo. A tabela virou de cabeça para baixo e o Corinthians terminou campeão daquele ano. Na Justiça, Edílson, o empresário Nagib Fayad e a CBF foram condenados a pagar R$ 160 milhões por dano moral aos consumidores, além de R$ 20 milhões solidários por dano moral difuso.
O Brasil não inventou a vergonha, só entrou na fila
Na Alemanha, também em 2005, o árbitro Robert Hoyzer foi preso acusado de manipular cinco jogos da Copa da Alemanha, aliciado por uma quadrilha de apostadores.
Na Itália, o Calciopoli explodiu em 2006, a um mês da Copa do Mundo. Escutas telefônicas mostraram que Luciano Moggi, dirigente da Juventus, escolhia os árbitros das partidas do próprio clube e dos concorrentes ao título, e passava orientação sobre o que fazer em campo. 19 partidas do campeonato de 2004/05 entraram na lista de suspeitas. A Serie A perdeu valor, público e credibilidade de uma vez só.
Quem vende um jogo não rouba o clube adversário. Rouba o torcedor que pagou o ingresso para assistir a uma disputa que já estava decidida fora de campo.

O apito que ninguém filma
A imensa maioria dos árbitros nunca vai aparecer em manchete nenhuma. Apita campeonato amador, categoria de base, jogo de bairro e final de várzea, sem VAR, sem câmera e sem segurança, por um valor que muitas vezes não cobre o dia de trabalho perdido. Chega antes de todo mundo, sai depois de todo mundo e volta para casa sem ninguém para defendê-lo.
É por esses que a data existe. Os outros, os que venderam o apito, a história já julgou.
Fontes: CBF; Lei municipal 14.485/2007, de São Paulo; revista Veja (23/09/2005); Superior Tribunal de Justiça Desportiva; Tribunal de Justiça de São Paulo; Gazzetta dello Sport.
Foto: Alfonso Scarpa/Unsplash (imagem ilustrativa)