O WhatsApp apagou, o iPhone guardou
Relatório de 218 páginas da Polícia Federal, com sigilo derrubado em 1º de setembro, reúne 52 arquivos recuperados do celular apreendido com o banqueiro Daniel Vorcaro.

A criptografia de ponta a ponta do WhatsApp funcionou como promete. A mensagem se autodestruiu depois de vista. Não adiantou nada. Doze segundos antes, o iPhone tirou um print. E o iPhone, ao contrário de todo mundo naquela conversa, não sabia guardar segredo.
A Justiça brasileira leva anos. O iOS levou 12 segundos.
É essa a espinha do relatório de 218 páginas que a Polícia Federal entregou ao Ministro André Mendonça em 27 de agosto e que teve o sigilo derrubado em 1º de setembro. O documento, uma Informação de Polícia Judiciária de Análise, saiu do aparelho apreendido com o banqueiro Daniel Vorcaro em 18 de novembro de 2025, na Operação Compliance Zero, que apura fraude de cerca de R$ 12 bilhões na cessão de carteiras de crédito do Banco Master para o BRB.
O método era disciplinado
Vorcaro abria o Bloco de Notas, escrevia, tirava uma captura de tela, abria o WhatsApp, enviava a imagem e fechava tudo. Levava segundos. O aplicativo que a Apple criou para lista de supermercado virou peça de inquérito.
O que ninguém contou ao banqueiro é que o próprio sistema do celular gerava, no mesmo instante, um arquivo PDF de idêntico teor numa pasta temporária. A perícia recuperou 52 deles. Foi assim que se soube não só o que foi escrito, mas a hora, o minuto e o segundo em que cada mensagem partiu.

Do outro lado, um nome
O destinatário identificado no relatório é o usuário salvo no aparelho como "Ministro Alexandre de Moraes". As respostas não foram recuperadas: a PF tem apenas o que saiu do celular apreendido.
Os contratos
O documento trata ainda de dois contratos entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro. O primeiro gerou pagamento de R$ 3.422.268,14 em 8 de fevereiro de 2024. O segundo, de 12 de maio de 2025, foi firmado com a empresa Vikings Participações.
Segundo o Poder360, os metadados do primeiro contrato mostram que a versão final foi modificada em 15 de janeiro de 2024, às 23h04, pelo usuário "Ministro Alexandre de Moraes".
Em outro trecho, Vorcaro orienta um funcionário a não pagar o escritório por Pix. O relatório não explica o motivo.
O capítulo londrino
O relatório descreve a articulação, com o ex-Ministro Fábio Faria, para convidar o Diretor-Geral da Polícia Federal, Andrei Passos, a um evento em Londres. Perguntado quem cobriria passagem e hospedagem, o interlocutor responde:
Todas as despesas bancadas por nós.
Trecho do relatório da Polícia Federal
O nome do Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, aparece em outra conversa. Alguém afirma:
Gonet é firme.
Trecho do relatório da Polícia Federal
Na mensagem seguinte, o mesmo interlocutor pede sigilo. O sigilo foi o único item da operação que não se sustentou.
Dois dias antes da prisão
Há a mensagem de 15 de novembro de 2025, dois dias antes da ordem de prisão, em que o banqueiro pergunta se conseguem fazer algo e se, na segunda-feira, ele já teria de estar fora do país.
O que acontece agora
Ao derrubar o sigilo, Mendonça pediu que o documento seja analisado pelo colegiado do Supremo em sessão pública e transparente. A decisão de marcar a sessão cabe ao Presidente do STF, Edson Fachin, que até agora não se manifestou.
Brasília discute quem marca a data. O celular já tinha marcado tudo, com hora, minuto e segundo.
Procurados pelo Poder360, o Ministro Alexandre de Moraes e a Procuradoria-Geral da República não responderam. A Rádio Cultura de Lavras mantém o espaço aberto a todos os citados, e publicará a resposta de quem quiser dá-la, na íntegra.
Acesse o material
Baixe a íntegra dos documentos no Poder360.
Baixe o relatório completo da Polícia Federal no GP1.
Acesse o simulador MasterWhats, que reúne cerca de 66 mil mensagens em 24 conversas extraídas do aparelho, apresentadas em formato de conversa.
Leia também: as reportagens do Jornalismo da Rádio Cultura de Lavras.
Fontes: relatório de Informação de Polícia Judiciária de Análise da Polícia Federal, com sigilo derrubado em 1º de setembro de 2026; Poder360; GP1.