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A menina que cantava por uma verdura: a infância de Wanderléa em Lavras

Antes de ser a Ternurinha da Jovem Guarda, ela era a Leinha da rua Dr. Gammon, pegava carona em carro de boi até o Aquenta Sol e foi levada por uma vizinha para cantar na Rádio Cultura. E não era a única lavrense naquela turma.

Por André Rocha · 20/09/2026, 10:08
Direção Geral e de Jornalismo: Erlandson Araujo
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A Ternurinha da Jovem Guarda em imagem do Fundo Correio da Manhã. Antes de ser essa mulher, ela foi a Leinha que cantava nas janelas da rua Dr. Gammon, em Lavras · Foto: Autor desconhecido/Arquivo Nacional, Fundo Correio da Manhã (domínio público)
A Ternurinha da Jovem Guarda em imagem do Fundo Correio da Manhã. Antes de ser essa mulher, ela foi a Leinha que cantava nas janelas da rua Dr. Gammon, em Lavras · Foto: Autor desconhecido/Arquivo Nacional, Fundo Correio da Manhã (domínio público)

Havia em Lavras uma menina que saía de casa com uma cestinha de frutas e verduras para vender na vizinhança. Só que o preço, nas ruas daquele tempo, não era cobrado apenas em dinheiro.

"Leinha, compro uma verdura, mas só se você cantar um pouquinho pra mim."

Era o que diziam as vizinhas, segundo o que a própria Leinha escreveu anos depois. E ela cantava.

A menina da cestinha se chamava Wanderléa Charlup Boere Salim. Duas décadas mais tarde, o Brasil inteiro ia conhecê-la por outro nome: a Ternurinha, a rainha da Jovem Guarda ao lado de Roberto Carlos e Erasmo Carlos.

A cena da cestinha não é história contada de boca em boca. Está escrita na autobiografia da cantora, "Wanderléa... Foi assim", lançada em 2017, um livro em que ela dedicou um capítulo inteiro a esta cidade, com um subtítulo de uma palavra só: "Lavras".

A família que veio parar aqui

Wanderléa nasceu em Governador Valadares, e a família se mudou para Lavras logo depois, segundo o verbete dela no Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. A casa ficava na rua Dr. Gammon, cercada de árvores. Dali, conta o cronista lavrense conhecido como Menino das Lavras, a menina costumava pegar carona nos carros de boi até o bairro do Aquenta Sol.

Aqui vale uma advertência de quem apura. As datas da infância dela não batem entre as fontes, e a Rádio Cultura prefere dizer isso com todas as letras a escolher uma versão e fingir que a dúvida não existe:

O Dicionário Cravo Albin registra o nascimento em 5 de junho de 1946 e diz que a família se transferiu para a Ilha do Governador, no Rio de Janeiro, em 1955. A Wikipédia, apoiada na autobiografia de 2017, dá como data de nascimento 5 de junho de 1944, e explica a diferença: no tempo de escola, a cantora declarava dois anos a menos do que realmente tinha. Já a crônica publicada pelo Lavras24Horas diz que ela morou na cidade até os seis anos, e que a mudança para o Rio aconteceu no início da década de 1950.

Ou seja: pode ter sido uma menina de seis anos ou uma menina de nove que fez as malas. Mas há um ponto em que todas as versões se encontram, e é justamente o que interessa para esta história: em qualquer uma delas, a Rádio Cultura já estava no ar quando a Leinha cantou pela primeira vez. A emissora foi fundada em 30 de junho de 1946 e entrou no ar em 26 de janeiro de 1947, conforme o levantamento do Jornal de Lavras sobre o centenário do rádio brasileiro.

A vizinha que levou a menina para a rádio

Quem deu o empurrão não foi produtor, nem empresário, nem caçador de talentos. Foi a vizinha.

Segundo a crônica do Menino das Lavras, quem levou Wanderléa a cantar na Rádio Cultura de Lavras foi Dona Nhanhá, uma vizinha que um dia a convidou para cantar numa reunião religiosa em casa. Do quintal para o microfone, foi esse o caminho.

No livro, a cantora se lembra de um "Regional" que acompanhava as músicas interpretadas pelas crianças no estúdio. O cronista levanta a hipótese de que fosse o Regional de José Mattioli, o mesmo que tocava no programa mirim da emissora em meados dos anos 1950, mas ele próprio apresenta isso como suposição, e é assim que fica registrado aqui.

Antes mesmo da rádio veio a quermesse. Aos quatro anos, segundo o mesmo relato, a Leinha causou comoção numa festa da cidade ao cantar diante do microfone segurando a boneca loira pelos pés, com a cabeleira da boneca varrendo o chão.

O primeiro palco foi o Theatro Municipal

Em fevereiro de 2011, quando a cantora foi entrevistada pelo programa Som do Vinil, do Canal Brasil, o Jornal de Lavras registrou o que ela contaria na TV: foi no palco do Theatro Municipal de Lavras que Wanderléa cantou em público pela primeira vez, ainda criança, encantando a plateia.

Aquele teatro, hoje desaparecido, tem outro vínculo com esta casa. Foi no Teatro Municipal que a Rádio Cultura D'Oeste foi oficialmente inaugurada, com apresentação de artistas lavrenses. A menina e a emissora estrearam no mesmo assoalho.

A cidade onde ela cantou ainda não tinha televisão

Para entender o tamanho do que era subir num palco em Lavras naquela época, ajuda lembrar como a cidade ouvia o mundo antes da Cultura existir.

O levantamento do Jornal de Lavras conta que, em 29 de julho de 1938, os lavrenses se acotovelavam embaixo da janela da casa de Nazareno Zucari, na rua do Cônego, hoje Comendador José Esteves, porque ele punha o aparelho de rádio na janela para a rua ouvir. Foi assim que a cidade soube do fim de Lampião. No mesmo ano, o imigrante italiano Ernesto Mattioli fez o mesmo com a Copa do Mundo da França, e dezenas de pessoas acompanharam os jogos na calçada.

O primeiro sinal de televisão só chegaria a Lavras em 9 de janeiro de 1956, com a programação da TV Itacolomy, de Belo Horizonte. Quer dizer: quando a Leinha cantava, rádio não era o meio mais popular da casa. Era o único.

Wanderléa com Roberto Carlos e Erasmo Carlos durante a gravação do filme "Roberto Carlos e o Diamante Cor de Rosa", em 1970 · Foto: Autor desconhecido/Arquivo Nacional, Fundo Correio da Manhã (domínio público)
Wanderléa com Roberto Carlos e Erasmo Carlos durante a gravação do filme "Roberto Carlos e o Diamante Cor de Rosa", em 1970 · Foto: Autor desconhecido/Arquivo Nacional, Fundo Correio da Manhã (domínio público)

Da quermesse para a festa de arromba

No Rio, a menina seguiu fazendo o que já fazia aqui: cantar em programa de rádio. Venceu concursos infantis e foi apontada como "a mais bela voz infantil", segundo o Dicionário Cravo Albin, que cita as participações dela em atrações como o Clube do Guri, da Rádio Mayrink Veiga, e o Vovô Odilon, da Rádio Tupi.

O primeiro disco saiu em 1962. Em 1963 veio o primeiro LP, pela CBS, e foi na gravadora que ela conheceu Roberto Carlos. Em 1965, os três estavam na TV Record comandando o programa que daria nome a uma geração inteira.

E ela não foi a única lavrense naquela turma

Aqui a história ganha uma segunda camada, e poucos na cidade fazem essa conta.

A Jovem Guarda não foi só um programa: foi uma marca, com roupa, gíria e produto. E quem cuidou disso na publicidade foi Carlito Maia, nome de batismo Carlos Maia de Souza, nascido em Lavras em 19 de fevereiro de 1924. Ele morreu em São Paulo em 22 de junho de 2002.

Foi na agência em que trabalhava, a Magaldi, Maia & Prosperi, que a Jovem Guarda e o Calhambeque foram lançados como marcas. Segundo o Jornal de Lavras, saíram dele expressões que o país repetiu à exaustão, entre elas o próprio "calhambeque" e o "uma brasa, mora". Ele viria a ser um dos nomes mais respeitados da propaganda brasileira, eleito publicitário do ano em 1978.

Então dá para dizer, sem exagero de bairrismo: no centro do maior fenômeno da juventude brasileira dos anos 1960 havia duas pessoas que passaram a infância a poucas ruas de distância uma da outra, aqui.

Ela voltou, mais de uma vez

Wanderléa não sumiu de Lavras depois da fama.

Segundo o relato de Fausto Novaes, um dos integrantes do conjunto Os Fantásticos, que tocou na abertura do show, a cantora se apresentou no auditório Lane Morton, do Instituto Presbiteriano Gammon, em 1967 ou 1968, no auge da Jovem Guarda. Ele guarda a impressão que ela deixou: preferiu se hospedar na casa de amigos de infância, ao lado do Instituto, perto de onde tinha morado quando criança. O Gammon, vale lembrar, é o mesmo instituto que deu à cidade o apelido da Praça do Gammon e a rua em que ela morou, história que a Rádio Cultura já contou.

Em 1999, ela voltou para um show na Praça Augusto Silva. O historiador Ângelo Alberto de Moura Delphim contou ao cronista que a cantora chegou um dia antes e, por volta da meia-noite, foi até a rua Dr. Gammon procurar a casa da infância. Não achou de primeira: a vizinhança inteira tinha sido reformada.

O que a Rádio Cultura ainda não conseguiu apurar

Esta matéria tem buracos, e eles ficam abertos de propósito.

A Rádio Cultura não localizou registro documental de quando o Theatro Municipal de Lavras foi construído nem quando deixou de existir. Também não encontramos gravação, foto ou programação de época que mostre a Leinha diante do microfone da emissora, nem o registro do nome do programa infantil em que ela cantou por aqui.

Quem tiver foto, recorte de jornal, cartaz de quermesse ou simplesmente a lembrança de ter visto aquela menina cantar, em casa de vizinho, na quermesse, no teatro ou no estúdio da rua Barão do Rio Branco, pode procurar a redação. História de cidade se remonta assim, um pedaço de cada vez.

As fontes desta matéria

Os detalhes da infância vêm da autobiografia "Wanderléa... Foi assim" (2017), tal como reproduzidos na crônica assinada pelo Menino das Lavras e publicada pelo portal Lavras24Horas, que também traz os relatos de Fausto Novaes e do historiador Ângelo Alberto de Moura Delphim, além de fotos do acervo do historiador e colecionador lavrense Renato Libeck. Os dados de carreira são do Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira e do verbete da Wikipédia em português. A história do rádio em Lavras, o primeiro palco no Theatro Municipal e a informação sobre Carlito Maia são do Jornal de Lavras, nas edições de 27 de fevereiro de 2011 e 8 de setembro de 2022.

Mais histórias da cidade no Programa Revista da Cidade, na Rádio Cultura de Lavras 96.5 FM, de segunda a sexta, das 11h às 14h.

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