O homem do gongo e da gaitinha no gol era mineiro: a história de Ary Barroso
Antes de ser o terror dos calouros no rádio e de escrever "Aquarela do Brasil", ele era um menino de Ubá que tocava piano no escuro do cinema mudo, com 12 anos.

Houve um tempo em que a sala de casa se organizava em volta de um móvel só: o rádio. Era nele que a família ouvia a novela, o noticiário, o jogo de domingo e, com uma torcida que misturava pena e diversão, os programas de calouros. De um lado do microfone, o cantor amador tremendo de nervoso. Do outro, um apresentador com um gongo ao alcance da mão.
No mais famoso desses programas, quem batia o gongo era um mineiro de Ubá. E ele também tinha o hábito de soprar uma gaitinha toda vez que saía gol.
O nome dele era Ary Evangelista Barroso, o homem que escreveu "Aquarela do Brasil".
O menino que tocava piano no escuro do cinema
Ary Barroso nasceu em Ubá, na Zona da Mata mineira, em 7 de novembro de 1903. A infância não foi fácil. Segundo o Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, ele perdeu a mãe aos oito anos, de tuberculose, e o pai morreu dois meses depois. Foi criado pela avó e pela tia Ritinha, que foi também a primeira professora de piano dele.
E aqui entra uma cena que diz muito sobre aquele tempo. O cinema ainda era mudo, e quem dava som ao filme era um pianista sentado perto da tela, tocando conforme a cena pedia. Por causa das dificuldades da família, com apenas 12 anos Ary passou a ajudar a tia fazendo o fundo musical dos filmes no Cinema Ideal, em Ubá, conta o Cravo Albin.
Em 1921 ele deixou Ubá de vez e foi para o Rio de Janeiro, então capital da República, estudar Direito. Para se sustentar, fez o que já sabia fazer: tocou piano em cinema mudo, no Cinema Íris e no Cinema Odeon. Formou-se em 1930.
O gongo que todo calouro temia
O rádio transformou o pianista em estrela. O Cravo Albin registra que o primeiro programa de calouros dele, o "Calouros em desfile", estreou em 1937 na Rádio Cruzeiro do Sul, no Rio. As fontes não contam essa história de um jeito só: a Wikipédia fala em "A Hora do Calouro", a partir de 1943, na mesma emissora. Nos anos 1950, o programa estava na Rádio Tupi.
O formato era simples e cruel. O candidato conversava com Ary ao vivo antes de cantar, e o apresentador não poupava ninguém. Na primeira nota desafinada, soava o gongo e o calouro saía desclassificado, muitas vezes com vergonha, às vezes chorando. Foi dali que Ary ganhou a fama de terror dos calouros.
Mas aquele palco também revelava gente. Passaram pelos programas dele nomes como Lúcio Alves e Ângela Maria, segundo o Cravo Albin.
"De que planeta você veio, minha filha?"
Ary Barroso para Elza Soares, na Rádio Tupi, em 1953
A história mais famosa é a de uma menina magrinha que apareceu em meados de 1953 na Rádio Tupi, com um vestido emprestado da mãe, bem maior do que ela, preso com alfinetes de fralda. A plateia riu. Ary quis saber de que planeta ela tinha vindo, e ouviu a resposta que entrou para a história do rádio brasileiro: "Do mesmo planeta que o senhor, seu Ary. Do planeta fome." Ela cantou "Lama", e o apresentador anunciou que acabava de nascer uma estrela. Era Elza Soares. O episódio está na biografia da cantora escrita por Zeca Camargo, de 2018.
A gaitinha que substituía o grito de gol
O outro lado de Ary Barroso era o futebol. Flamenguista declarado, ele também foi locutor esportivo e, segundo o Cravo Albin, inovou as transmissões ao introduzir o uso de uma gaitinha, que soprava toda vez que um time marcava um gol. Isso foi no fim dos anos 1930.
No lugar dos gritos longos de gol, vinha o som da gaitinha, que "acabou virando a principal marca de seu estilo como profissional do rádio esportivo", como resumiu a Rádio MEC, da EBC. E a paixão pelo Flamengo era tanta que, segundo a Wikipédia em inglês, ele recusou um convite para ir morar nos Estados Unidos por causa do clube.
Há ainda um episódio que só podia ter acontecido naquela época. Proibido certa vez de entrar no estádio do Vasco da Gama, Ary não desistiu do jogo: transmitiu a partida do telhado do Ginásio Pio-Americano, acompanhando tudo de binóculos, conta o Cravo Albin.
Da Zona da Mata para o Zé Carioca
Em 1939, Ary compôs "Aquarela do Brasil", gravada naquele ano por Francisco Alves, com arranjo de Radamés Gnattali. A música atravessou o oceano. Em 1942, entrou em "Alô, Amigos", o filme da Disney que apresentou ao mundo o papagaio Zé Carioca. Ary chegou a ser indicado ao Oscar pela canção "Rio de Janeiro", do filme "Brasil", de 1944.

O menino do Cinema Ideal ainda arrumou tempo para a política: em 1946 foi eleito vereador no Rio de Janeiro com a segunda maior votação da Câmara, segundo a Wikipédia.
Ary Barroso morreu em 9 de fevereiro de 1964, no Rio. E a despedida teve um toque de samba. Naquele carnaval, o Império Serrano desfilou com o enredo "Aquarela Brasileira", em homenagem a ele, e, segundo o Cravo Albin, o compositor morreu quase ao mesmo tempo em que a escola passava pela avenida.
Ubá não foi esquecida
Mesmo tendo feito a vida no Rio, ele não esqueceu a terra natal. O Cravo Albin registra duas composições inéditas dedicadas à cidade, "Ubá" e "Ubaense glorioso", transcritas em 2005.
E em Lavras?
A Rádio Cultura entrou no ar em 1947, em plena era de ouro do rádio, e também teve os seus pequenos cantores diante do microfone. Como o portal já contou, uma menina chamada Wanderléa foi levada por uma vizinha para cantar na emissora antes de virar a Ternurinha da Jovem Guarda.
A redação não localizou um registro organizado dos programas de calouros que a Cultura e as festas da cidade fizeram ao longo das décadas. Quem subiu num palco desses, quem levou um gongo ou quem guarda foto, fita ou só a lembrança de uma dessas noites pode procurar a Rádio Cultura. História de cidade se remonta assim, um pedaço de cada vez.
Fontes: Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira; Wikipédia (verbetes Ary Barroso, em português e em inglês, e Elza Soares); Rádio MEC/EBC, programa "Todas as Vozes" (2014).