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As duas praças mais conhecidas de Lavras têm nome de pai e filho

O Dr. Jorge era pai do Dr. Augusto Silva, e ninguém combinou isso. A tipuana da Praça do Gammon ainda nasceu de uma semente da tipuana da outra praça: mãe e filha, uma em cada uma.

Por André Rocha · 23/08/2026, 10:10
Direção Geral e de Jornalismo: Erlandson Araujo
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As duas praças mais conhecidas de Lavras têm nome de pai e filho

Toda cidade do interior tem uma praça que é o ponto de encontro, e Lavras tem duas. Quem marca de se ver "na praça" sabe de qual está falando pelo contexto, e ninguém se confunde. O que quase ninguém sabe é que os dois nomes na placa são de pai e filho, e que as duas árvores mais bonitas dessas praças também são parentes entre si.

Quando a Rádio Cultura contou, no começo de agosto, por que a Praça Dr. Jorge é conhecida como Praça do Gammon, ficou faltando responder a uma pergunta que a própria reportagem deixou no ar: e o Dr. Jorge, quem foi? Agora dá para contar.

E o Dr. Jorge, quem foi?

O Dr. Jorge era o Dr. José Jorge da Silva, advogado, nascido em 1810 e falecido em 1880. Ele foi deputado provincial de 1835 a 1837 e reeleito para o período de 1838 a 1839, e morou em Lavras por muitos anos.

O levantamento é da engenheira florestal Alessandra Teixeira da Silva, membro da Academia Lavrense de Letras, no acervo "Praças e suas Histórias", ligado à pesquisa de doutorado que ela desenvolveu na UFLA sobre a evolução histórico-cultural e paisagística de praças de Lavras. A frase dela é direta: a praça é "um dos marcos mais antigos da cidade de Lavras, assim denominada em homenagem à memória do notável mineiro Dr. José Jorge da Silva".

O espaço é mais velho que a praça. Segundo registros da década de 1920 citados no mesmo acervo, aquele terreno já fazia parte do povoado em 1899. E um registro da década de 1930 descreve o lugar arborizado com paineiras, a árvore de tronco grosso e flor rosa que muita gente de Lavras ainda associa ao lugar.

O filho estudou fora, virou médico e ganhou a outra praça

O Dr. Augusto José da Silva era filho do Dr. José Jorge da Silva e de dona Joana Miquilina Bonfim. Nasceu em Lavras em 5 de julho de 1845.

A trajetória dele está registrada no livro "Lavras, sua história, sua gente", de José Alves de Andrade, publicado em 2002. Estudou as quatro primeiras séries em Lavras, as quatro últimas em São Gonçalo da Campanha, e fez o segundo grau no Mosteiro de São Bento, no Rio de Janeiro. Formou-se em medicina na Escola da Corte em 1872.

Clinicou dois anos em Lavras e se mudou para a vizinha Bom Sucesso, onde se casou com Belmira Cândido da Fonseca, em 1874. O casal teve seis filhos. Viúvo, voltou para Lavras e passou a morar na casa da irmã, dona Elisa. Em janeiro de 1905 casou-se pela segunda vez, com Maria Benícia da Silva. Morreu em dezembro do mesmo ano.

A praça que leva o nome dele já teve vários: foi Largo da Matriz, foi Praça Central e foi Jardim Municipal. Foi inaugurada oficialmente em 29 de novembro de 1908, já com o nome do médico lavrense.

E ninguém combinou nada

Aqui está a parte curiosa, e ela não é invenção de quem conta: está registrada por Bi Moreira.

Sílvio do Amaral Moreira, o Bi Moreira, foi jornalista e museólogo, é lembrado como um dos grandes defensores da cultura de Lavras e dá nome ao Museu Bi Moreira. Nos anos 1970 e 1980 ele escrevia na revista "Acrópole", e num desses textos ele conta que a Praça Dr. Jorge foi construída tempos depois da outra, nas imediações do Instituto Gammon, "em homenagem ao Dr. José Jorge da Silva, que coincidentemente era o pai do Dr. Augusto José da Silva".

Coincidentemente. Ou seja: a cidade não sentou para combinar de homenagear pai e filho em duas praças. Foi acontecendo, uma de cada vez, e o parentesco só ficou visível depois.

A tipuana que é mãe da outra tipuana

A tipuana da Praça Dr. Augusto Silva é um dos cartões-postais mais conhecidos de Lavras, e tem mais de um século. Bi Moreira contou, na "Acrópole" número 28, de setembro de 1980, que ela foi plantada pelo engenheiro responsável pela obra do Jardim Municipal, Bernardino Maceira, que morava na rua Dona Inácia e tinha uma estufa anexa ao jardim da própria casa.

Anos depois, quando a segunda praça foi feita, plantaram uma tipuana lá também. E ela não veio de qualquer lugar: nasceu de uma semente colhida da árvore centenária da Praça Dr. Augusto Silva.

Quer dizer que a coisa se repetiu embaixo da terra. Duas praças com nome de pai e filho, e, em cada uma delas, uma árvore que é mãe e filha da outra.

Bi Moreira achou graça nisso e escreveu um soneto na primavera de 1980, chamado "Tipuana II", em que fala com a árvore mais nova. O verso que resume tudo é este: "As duas praças lembras pai e filho." Ele já tinha escrito, em 1943, outro poema para a árvore mais velha, "Árvore Monumento", publicado na "Acrópole" número 24, de setembro de 1979.

A briga das duas pedras

A tipuana da Praça Dr. Augusto Silva também já deu trabalho. Em 1979 duas pedras grandes, que formavam um monumento à Lei de Deus, foram colocadas muito perto da árvore. Na época se dizia que o lugar escolhido não era apropriado, porque danificava as raízes e podia até matar a tipuana.

O impasse durou até 1995, quando a praça foi reformada. As pedras saíram e foram substituídas por placas de acrílico, colocadas em frente ao coreto. A árvore ficou.

O que a gente ainda quer saber

Fica faltando um pedaço: em que ano exatamente a tipuana da Praça Dr. Jorge foi plantada, e de quem foi a mão que colheu a semente na outra praça. Bi Moreira chamou essa mão de "mão boa e amiga", mas não disse o nome. A Rádio Cultura não achou o registro.

Quem souber, quem tiver foto antiga das duas praças, ou quem simplesmente se lembre de brincar embaixo dessas árvores quando elas eram menores, pode procurar a redação. História de cidade se remonta assim, um pedaço de cada vez.

Mais histórias da cidade no Programa Revista da Cidade, na Rádio Cultura de Lavras 96.5 FM, de segunda a sexta, das 11h às 14h.

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