Foram as americanas do Gammon que ensinaram Lavras a comer salada crua
No começo do século 20, as professoras de Artes Domésticas do Colégio Carlota Kemper trouxeram para a cidade o fudge, o pudim de pão que os alunos apelidaram de "angu de macaco", o ponche sem álcool e a bala quente. Quase tudo ficou.

Tem comida que a gente come a vida inteira sem desconfiar de onde ela veio. Em Lavras, a bala quente é uma dessas. O nome que ficou é esse, mas ela chegou à cidade chamada de outro jeito, "candy", na bagagem das professoras americanas que davam aula no Colégio Carlota Kemper, no começo do século passado.
A história está reunida no projeto Memórias UFLA, da Universidade Federal de Lavras, num texto assinado pela professora Patrícia Duarte de Oliveira Paiva com a colaboração de Vanda Amâncio Bezerra Mendes, a dona Vandinha, que foi aluna de Artes Domésticas e depois professora e diretora do Instituto Gammon. O levantamento se apoia em edições da revista "O Agricultor", dos anos 1920, e do jornal "O Município", de 1922.
As mulheres que vieram junto
Os missionários presbiterianos americanos que fizeram o Instituto Evangélico, cujas atividades começaram em Lavras em 1º de fevereiro de 1893, e depois a Escola Agrícola de Lavras, em 1908, quase nunca chegavam sozinhos. Vinham em casal ou em família, e as esposas e as filhas acabavam dentro da escola. Davam aula de História Sagrada, Inglês, Matemática, Educação Física e Artes Domésticas, e também cuidavam da biblioteca, do refeitório e do internato.
O prospecto do Instituto Evangélico de 1922 traz os nomes delas. Charlotte Kemper, a dona Carlota, em História Sagrada e Inglês. Katherine Bockwalter, em Artes Domésticas e Educação Física, que depois se casaria com o professor e diretor John Wheelock e dirigiria o internato do Colégio Carlota Kemper, a escola de meninas do Instituto. Charlotte Landes, em Matemática e Inglês. Genevieve Marchant, em Inglês. No prospecto de 1927 aparecem Hulda Sickert, Emma Knight e Clara Gammon, mulher de Samuel Rhea Gammon.
Uma delas trouxe na mala um caderno que virou documento. É o de Clara Moore Gammon, com capa de tecido e as iniciais CMG, cheio de lições de culinária e de receitas. A data nas páginas é 1897.
O curso que também ensinava a receber visita

Em 1921 o Instituto Gammon criou o curso de Artes Domésticas. Ao lado de português, matemática, inglês, francês, desenho, história e geografia, entravam matérias que hoje soam de outro mundo numa grade escolar: costura, decoração de casa, enfermagem, puericultura, pronto-socorro e arte culinária.
Dona Vandinha, que passou por tudo isso como aluna, conta como era a sequência. No 5º ano se aprendia a bordar e a costurar, numa sala reservada, cheia de máquinas de costura. No 6º ano vinham Nutrição e Cozinha. No 7º, decoração de casa, com especialistas que vinham dos Estados Unidos para ensinar onde e como pendurar um quadro, como arrumar as jarras de flores e como dispor as coisas na sala e no quarto.
E tem um detalhe que explica o resto desta matéria: nas aulas de cozinha, as moças aprendiam a fazer apenas pratos de origem norte-americana. Foi por essa porta que eles entraram no cardápio lavrense.
Havia ainda a parte de saber receber. As alunas aprendiam a organizar, enfeitar e servir um banquete pelas regras de etiqueta, e treinavam nos jantares feitos no Instituto Evangélico, a "escola dos americanos", como a cidade o chamava.
O que ficou na mesa de Lavras

A lista é maior do que parece. O pão americano, o biscuit, foi vendido por muitos anos na extinta Padaria São Jorge. O fudge, aquele docinho de chocolate cortado em quadradinhos, continua sendo feito. As torradas doces e salgadas com geleia, o sorvete, os pratos frios e as saladas elaboradas vieram todos daí.
O pudim de pão tem a melhor história. Carlota Kemper ficava indignada ao ver como se desperdiçava pão no Brasil, e passou a ensinar o bread pudding, feito com o pão amanhecido. Os alunos do Instituto, que de bobos não tinham nada, batizaram a iguaria de "angu de macaco". O apelido pegou.
Nas festas se servia o "ponche protestante", que ganhou esse nome justamente por não levar álcool. E o "candy", que veio com o nome de origem, é a bala quente que a cidade come até hoje.
A salada é o caso mais curioso de todos, porque não é um prato, é um hábito. Naquele tempo, verdura em Lavras se comia cozida, e foi nas aulas de culinária que as alunas aprenderam a montar salada e a comer o verde cru. Junto veio a valorização das frutas.
O gelo que teria vindo do Rio de Janeiro
Há também a história do gelo, que era novidade para os lavrenses. Conta-se que dona Carlota encomendou o produto no Rio de Janeiro e deu um jeito de fazê-lo chegar até Lavras só para mostrar a invenção à cidade.
Essa é daquelas que se conta e não se fecha. O próprio texto da UFLA usa a expressão "conta-se", sem trazer a data em que isso aconteceu nem o registro de como o carregamento chegou. Fica aqui do jeito que chegou, como memória da cidade, e não como fato datado.
O concurso de bolos de 1922
Na Exposição Agropecuária de Lavras, realizada de 4 a 9 de setembro de 1922, houve concurso de "Trabalhos de Culinária", e o jornal "O Município" publicou o resultado em 17 de setembro daquele ano. A leitura da lista é um passeio pelos sobrenomes da cidade.
Em bolos, o primeiro lugar foi de dona Alice Costa, o segundo de dona Clara Gammon, o terceiro da Panificação Lavrense e o quarto de dona Maria Mori. Em balas de chocolate, primeiro lugar para dona Mariana Gouveia e segundo para dona Carlota Kemper. Vieram menções honrosas para a Padaria do Gymnasio, no pão; para dona Alice Costa, na rosca; para dona Esther Dias de Souza, nos bolos do sertão; para dona Clara Gammon, na geleia de jabuticaba; e para o Colégio Carlota Kemper, na geleia de marmelo, no doce de laranja, na marmelada e nas balas. A comissão julgadora era formada por dona Francisca Cambraia de Azevedo, dona Carmem Menicucci e dona América Maia.
O jornal registra ainda o destino do que sobrou: por determinação dos próprios expositores, parte dos produtos agrícolas expostos foi distribuída à Santa Casa e aos pobres da cidade.
A coluna de dona Bella e o bolo de dona Nannie

A revista "O Agricultor" tinha uma seção chamada "O Companheiro do Lar", tocada pela professora Bella Kolb, do Colégio Kemper. Ali saíam receitas, conselhos de saúde e de família e relatos de viagem. Em outubro de 1925 ela publicou um artigo sobre a alimentação da família com uma frase que poderia ter sido escrita ontem: "Não é a quantidade de comida que uma criança come que a nutre bem, mas sim a qualidade da comida".
Foi nessa seção que saiu, em julho de 1926, o bolo de coco de dona Nannie Hunnicutt, especialidade da casa por décadas, servido em aniversário, em casamento e em reunião importante da família. A receita pede uma xícara de manteiga, duas de açúcar, três de farinha de trigo e quatro ovos, e o segredo está no suspiro que cobre tudo, feito com três claras batidas por meia hora com açúcar e caldo de limão. O bolo é partido no meio, recheado com suspiro e coco ralado e coberto de novo. A própria receita se despede com uma linha que vale por qualquer nota de rodapé: "O effeito não é tão bello quanto delicioso o paladar".
De todas as netas, só uma, Jean Hunnicutt Fuser, já falecida, aprendeu a fazer o bolo com perfeição.
E teve o caminho de volta
A troca não foi de mão única. Entre as receitas guardadas pelas netas de dona Nannie há uma que só podia ter nascido aqui, e que tem até nome de piada mineira: "mineiro com botas".
É simples assim: fritam-se bananas da terra, cortam-se tirinhas de queijo minas, monta-se no prato um xadrez de uma camada de banana e outra de queijo, polvilha-se açúcar e leva-se ao forno por uns 15 minutos. Americana no método, mineira no recheio.
O que a gente ainda quer saber
Fica faltando muita coisa, e é justamente aí que entra quem está lendo. Quem ainda faz o fudge em casa, quem se lembra do pão americano da Padaria São Jorge, quem guardou caderno de receitas de mãe ou de avó que passou pelas aulas de Artes Domésticas, ou quem tem foto daquelas turmas, pode procurar a redação da Rádio Cultura. História de cidade se remonta assim, um pedaço de cada vez.
Mais histórias de Lavras no Programa Revista da Cidade, na Rádio Cultura de Lavras 96.5 FM, de segunda a sexta, das 11h às 14h.