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O primeiro grupo escolar de Lavras tinha barbeiro, museu e livros de Júlio Verne

Inaugurado em 13 de maio de 1907 e dirigido por 18 anos pelo professor Firmino Costa, o grupo tinha jornalzinho, biblioteca infantil e até caramanchão de ginástica feito com trilhos de ferro.

Por André Rocha · 11/10/2026, 10:05
Direção Geral e de Jornalismo: Erlandson Araujo
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O primeiro grupo escolar de Lavras tinha barbeiro, museu e livros de Júlio Verne

Antes de existir merenda do governo, biblioteca de bairro e pracinha com balanço, Lavras teve uma escola que já pensava em tudo isso. E quem estava por trás dela era um professor de Língua Portuguesa que a cidade conhece hoje mais pelo nome na fachada do que pela história: Firmino Costa.

Nesta semana do Dia do Professor, comemorado em 15 de outubro, vale lembrar quem foi o homem que deu nome a uma das escolas mais tradicionais de Lavras.

Nasceu em Niterói por acaso

Firmino da Costa Pereira nasceu em 28 de outubro de 1869, em Niterói (RJ), mas foi por acaso: a mãe estava lá fazendo um tratamento de saúde. Ele cresceu em Lavras, passou aqui a infância e boa parte da vida adulta e sempre se considerou lavrense. Era o quinto de nove filhos de uma família conhecida na cidade. Um tio dele, Firmino Antônio Sales, era pai de Francisco Sales, que chegou a presidente do Estado de Minas.

Antes de virar diretor, Firmino dava aulas em Lavras no Instituto Gammon e no Colégio Nossa Senhora de Lourdes.

A escola que demorou a abrir

Em 1906, a reforma do ensino do presidente do Estado João Pinheiro criou em Minas os grupos escolares, escolas primárias maiores e mais organizadas, no lugar das velhas escolinhas isoladas, em que uma professora sozinha dava aula para todo mundo. Lavras ganhou o seu, o quinto grupo escolar do estado, e Firmino Costa foi nomeado o primeiro diretor.

A inauguração foi adiada algumas vezes, porque a reforma dos prédios atrasou e faltavam carteiras. A festa finalmente aconteceu em 13 de maio de 1907. O grupo foi instalado em dois prédios adaptados: a antiga Casa de Instrução, na Rua Direita, construída em 1873, e a Casa do Colégio, comprada com dinheiro arrecadado entre os moradores numa subscrição popular.

Grupo escolar do Brás, em São Paulo, em 1908, quando os grupos escolares eram a grande novidade do ensino no país. A foto é ilustrativa: o de Lavras funcionava em prédios adaptados · Foto: Arquivo Público do Estado de São Paulo/Wikimedia Commons (domínio público)
Grupo escolar do Brás, em São Paulo, em 1908, quando os grupos escolares eram a grande novidade do ensino no país. A foto é ilustrativa: o de Lavras funcionava em prédios adaptados · Foto: Arquivo Público do Estado de São Paulo/Wikimedia Commons (domínio público)

Cabide numerado e talha de água

O regimento dos grupos escolares, publicado pelo Estado em janeiro de 1907, mostra como era a escola que se queria naquele tempo. Cada sala era para 50 alunos e devia ter um quadro-negro de pelo menos quatro metros, mesa do professor em cima de um estrado e uma talha com água potável. Os alunos tinham porta-chapéus com cabides numerados e porta-guarda-chuvas também numerados. A toalha do lavabo era trocada todo dia, havia um jardim principalmente para o recreio das meninas e um terreno cercado para a horta escolar. Meninos e meninas estudavam separados.

O jornalzinho da escola

Firmino Costa não se contentou com abrir as portas. Ele criou um boletim, o Vida Escolar, que circulou de 15 em 15 dias, de 1º de maio de 1907 a 15 de novembro de 1908. Ali contava à cidade as conquistas e as dificuldades da escola e publicava o nome de quem tinha feito doação. Era o jeito de pôr Lavras inteira para ajudar.

Os relatórios anuais que ele mandava ao governo eram publicados no jornal oficial Minas Gerais, que circulava pelo estado todo. Assim, professores de outras cidades acompanhavam o que se fazia no grupo de Lavras. Foi desse jeito que o diretor ficou conhecido em Minas.

Barbeiro, telefone e Júlio Verne

Ano a ano, os relatórios traziam uma lista de "novas aquisições". A de 1914 é um retrato daquele tempo: serviço de corte de cabelo para os alunos, uma pequena enfermaria com cama e remédios, um aparelho telefônico, um quadro elétrico para se comunicar com as salas e cofrinhos para recolher doações. As oficinas do próprio grupo faziam móveis e utensílios, e o curso de trabalhos domésticos costurava vestidos, ternos, uniformes e toalhas e preparava merenda para os alunos mais pobres.

No mesmo relatório, Firmino anuncia a Biblioteca Infantil "Custódio de Sousa Pinto", batizada com o nome de um morador que doou 125 livros novos. A biblioteca ficava numa sala com mesa e cadeiras, "onde os alunos podem ler á vontade", escreveu o diretor. Tinha almanaques, contos, poesias, livros de viagem e romances de Júlio Verne.

Um museu dentro da escola

Firmino defendia que criança aprende vendo e pegando. Por isso montou um Museu Escolar, que começou do nada e foi crescendo com doações, inclusive dos próprios alunos. Num relatório do meio da década de 1910, o acervo já estava dividido em sete partes, com esqueletos de animais, ovos, abelhas e colmeias, coleções de insetos, ladrilhos, porcelanas, papéis de vários tipos, ferramentas e máquinas em miniatura.

As aulas também saíam da escola. No ano escolar de 1915, os alunos foram ao Campo de Demonstração, uma estação agrícola federal, e praticaram com máquinas agrícolas. Naquele ano, segundo o relatório, a matrícula cresceu 71% e a frequência, 104%.

Caramanchão de trilhos de ferro

No relatório de 1917, o diretor comemorava um campo de ginástica, uma sala de modelagem e um grande caramanchão para a ginástica, construído com trilhos de ferro, doados pelo Dr. Álvaro Botelho, nome que também batiza um dos prédios históricos da UFLA.

E Firmino já pensava longe. Num dos relatórios, sugeriu que a prefeitura preparasse áreas nas praças para a criançada:

Uma iniciativa utilíssima, por parte das municipalidades, seria a formação de pontos de recreio nas ruas, onde as crianças pudessem brincar á vontade.

Firmino Costa, em relatório do Grupo Escolar de Lavras

Era, em outras palavras, a pracinha com brinquedo que toda cidade tem hoje.

A escola ganhou o nome dele com ele ainda lá

A homenagem veio cedo. A partir de 1915, o Grupo Escolar de Lavras passou a se chamar Grupo Escolar Firmino Costa, e o diretor continuou à frente dele até 1925. Foram 18 anos no cargo.

Depois saiu de Lavras: foi dirigir o internato do Ginásio Mineiro, em Barbacena, e mais tarde trabalhou na Escola Normal de Belo Horizonte, a escola que formava professoras. Escreveu livros sobre ensino e sobre a língua portuguesa, como o Vocabulário analógico, de 1933, com prefácio de Afonso de Taunay, da Academia Brasileira de Letras. Morreu em Belo Horizonte em 2 de julho de 1939, aos 69 anos.

A escola que ele abriu em 1907 continua de portas abertas, hoje como Escola Estadual Firmino Costa.

Você estudou no Firmino Costa, tem foto antiga da escola ou lembra de uma professora daquele tempo? Mande para a Rádio Cultura. A memória da cidade também se escreve com as lembranças de quem viveu aquilo.

Fontes: tese de doutorado "Do método intuitivo à escola ativa: o pensamento educacional de Firmino Costa (1907-1937)", de Juliana Cesário Hamdan (Faculdade de Educação da UFMG), baseada nos relatórios do Grupo Escolar de Lavras e no boletim Vida Escolar; verbete Firmino Costa da Wikipédia; e o blog História de Lavras. Na capa, cartão-postal antigo de Ouro Preto em que aparece o Grupo Escolar Dom Pedro II, da mesma geração de grupos escolares mineiros (imagem ilustrativa, acervo do Museu Paulista da USP).

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