Antes de ser UFLA, era a Escola Agrícola: o dormitório apelidado de Jaratataca e o trator que Lavras foi ver arar
Fundada em 1908 com o Gammon, a escola formou só três agrônomos na primeira turma, ergueu um silo de 19.500 tijolos e trouxe a Lavras um dos primeiros tratores de Minas.

Hoje são mais de 16 mil estudantes, carro para todo lado e prédio novo subindo no câmpus. Mas houve um tempo em que a universidade de Lavras cabia em poucos casarões, cercados de canteiro, pasto e chiqueiro, e em que a turma inteira de formandos podia ser contada nos dedos de uma mão.
Esse tempo começou em 1908, quando nasceu a Escola Agrícola de Lavras, a semente do que hoje é a Universidade Federal de Lavras (UFLA).
Um sonho de missionário
A escola foi idealizada pelo Dr. Samuel Rhea Gammon, o mesmo do Instituto Gammon, e teve como primeiro diretor o também americano Dr. Benjamin Harris Hunnicutt, que chegou a Lavras em 1907 com a missão de montá-la. A ideia era ensinar agricultura com ciência, numa época em que a lavoura brasileira ainda se fazia quase toda no braço e no costume.
O prédio principal ficou pronto em 1909. No mesmo ano, segundo a cronologia reunida pelo blog História de Lavras, a escola trouxe dos Estados Unidos porcos da raça Duroc-Jersey, uma novidade e tanto para os criadores da região.
A primeira turma se formou em 1911, e era pequena mesmo: três agrônomos, Emanuel Deslandes, Aurino Ferreira e Oswaldo Emrich.
A torre de 19.500 tijolos

Quem passava pela chácara do Ginásio, no terreno que hoje é do Instituto Gammon, perto da Cruz Vermelha, via uma torre redonda que não existia em nenhum outro canto de Minas. Era o silo aéreo, construído pela Escola Agrícola em 1915, segundo o acervo Memórias UFLA, e apontado como o primeiro do estado.
Os números guardados pela universidade impressionam até hoje: 9 metros de altura, 4 de diâmetro, 19.500 tijolos e um custo de 3:122$550, pouco mais de três contos de réis. Servia para a ensilagem, o jeito de conservar o capim e o milho verde para o gado comer na seca. Coisa que hoje qualquer fazenda da região faz, e que Lavras aprendeu ali.
O Jaratataca
Em 14 de julho de 1922 foram inaugurados dois prédios que até hoje marcam o câmpus histórico: o Álvaro Botelho e o Dr. Carlos Prates.

O Carlos Prates era a casa dos alunos. No térreo ficavam a cozinha e o refeitório; no andar de cima, o dormitório, com quartos pequenos, geralmente dois rapazes em cada um, para cerca de trinta internos. E os estudantes, com o humor de sempre, deram ao prédio um apelido que pegou: Jaratataca, o bicho do mato famoso pelo cheiro forte. O motivo, registra o acervo da UFLA, era o cheiro desagradável do lugar.
O Jaratataca não caiu. Hoje ele é a sede das fundações Faepe e Fundecc.
O dia em que o trator chegou
Naquele mesmo 1922, a escola realizou a primeira Exposição Agrícola e Industrial. O acervo da universidade lembra outros pioneirismos da época: a primeira exposição de milho do Brasil, a primeira exposição agropecuária de Minas e a primeira revista do estado voltada para o homem do campo.
E em 1923 chegou a novidade que fez muita gente ir ver de perto: o primeiro trator de Lavras, o quarto de Minas Gerais, segundo a cronologia do História de Lavras. A UFLA o registra como um dos primeiros tratores a arar terras brasileiras. Quem estava acostumado com boi e arado deve ter achado aquilo coisa de outro mundo.

De escola a universidade
O resto da história a cidade foi acompanhando de perto:
• 1938: a Escola Agrícola passa a se chamar Escola Superior de Agricultura de Lavras, a ESAL, nome que até hoje muito lavrense usa no lugar de UFLA; • 1951: Arlete Veiga Pádua se torna a primeira mulher formada em Agronomia pela escola; • 1963: a Lei 4.307 federaliza a ESAL, que se separa do Instituto Gammon; • 1994: em 15 de dezembro, pela Lei 8.956, sancionada pelo presidente Itamar Franco, a ESAL vira a Universidade Federal de Lavras.
De três formandos em 1911 a uma universidade federal com mais de 16 mil estudantes, a escola que começou com porcos importados, um silo de tijolo e um trator novidade ajudou a dar a Lavras o jeito de cidade universitária que ela tem hoje.
Você estudou na ESAL, morou no Jaratataca ou tem foto antiga da escola? Manda para a Rádio Cultura. A memória da cidade também se escreve com as lembranças de quem viveu aquele tempo.
*Fontes: acervo Memórias UFLA (memorias.ufla.br), cronologia da Escola Agrícola/ESAL/UFLA do blog História de Lavras e verbete da Universidade Federal de Lavras na Wikipédia.*