O primeiro palhaço negro do Brasil era mineiro e fugiu de casa aos 12 anos
Antes do cinema e da televisão, a chegada da lona era o maior acontecimento do ano no interior de Minas. E foi de um circo desses que saiu Benjamim de Oliveira, o criador do circo-teatro brasileiro.

Houve um tempo em que a chegada do circo era o maior acontecimento do ano numa cidade do interior. Bastava o cartaz aparecer colado na esquina, ou o carro de som passar devagar pelo bairro anunciando a estreia, para o assunto tomar conta da escola, da fila da padaria e da roda de conversa na calçada.
Dias depois, um terreno vazio que ninguém olhava amanhecia diferente. Os mastros subiam, a lona listrada era esticada no chão e puxada para o alto, e a molecada da vizinhança ficava horas em volta só assistindo à montagem, que já era um espetáculo antes do espetáculo.
Na noite da estreia, tudo tinha um peso maior. O cheiro de pipoca e de algodão-doce na entrada, a arquibancada de tábua rangendo, as luzes se apagando de uma vez e aquele frio na barriga quando o primeiro artista pisava no picadeiro. Por duas horas, o mágico fazia milagre, o trapezista teimava com a gravidade e o palhaço tinha o poder de dissolver qualquer preocupação.

E a lona não ficava para sempre, o que era exatamente o que fazia a coisa valer tanto. Segundo levantamento publicado pelo jornal Estado de Minas sobre o Circo Irmãos Simões, uma temporada durava em média 15 dias. Depois disso os mastros desciam, o terreno voltava a ser terreno, e o que sobrava era a promessa de que um dia eles voltariam.
Essa cena se repetiu no interior de Minas por mais de um século. O circo chegou ao Brasil por volta de 1830, trazido por imigrantes italianos e por famílias ciganas vindas da Romênia e da antiga Iugoslávia, e as trupes itinerantes deixaram registro em cidades mineiras como São João del-Rei, Caxambu, Guarani e Conceição de Aparecida.
Algumas dessas famílias fizeram história por aqui. Os Simões começaram com o patriarca João Simões ainda no fim do século 19. Vieram também os Stancovich, os Stevanovich, os Wassinovich e os Robattini. O Circo-Teatro Caxambu, da família Gonçalves, rodou Minas com o palhaço Pardal.
Mas a maior figura dessa história toda nasceu mesmo em solo mineiro, e quase ninguém sabe disso. Benjamim de Oliveira nasceu em 11 de junho de 1870, na Fazenda de Guardas, no povoado então chamado Patafufu, hoje o município de Pará de Minas. Era filho de Malaquias Chaves e de Leandra de Jesus, e nasceu forro.
Aos 12 anos, fugiu de casa com a trupe do Circo Sotero, que passava pela região. Começou como acrobata e trapezista, e virou o primeiro palhaço negro reconhecido no país. Foi dele a invenção do circo-teatro brasileiro, o formato que juntou o picadeiro com dramas, comédias e operetas encenadas debaixo da lona. No Circo Spinelli, no Rio de Janeiro, ele dirigiu peças como “O diabo e o chico”, de 1908, e “Os pescadores”, de 1911. Morreu no Rio em 30 de maio de 1954, aos 83 anos.

Ou seja: o menino que corria atrás da lona podia acabar dentro dela. Era assim que o circo se renovava, recolhendo em cada cidade quem não conseguia mais ficar parado depois de ver o espetáculo.
As grandes lonas foram rareando. Em janeiro de 2003, o Circo Garcia baixou a lona depois de 75 anos de história.
A Rádio Cultura não localizou um registro organizado de quais circos passaram por Lavras ao longo dessas décadas, nem em que terrenos eles armaram a lona por aqui. Quem guardar foto, cartaz, ingresso ou simplesmente a lembrança de uma dessas noites pode procurar a redação. História de cidade se remonta assim, um pedaço de cada vez.