Quando Ijaci era Conceição do Rio Grande e Itumirim se chamava Coruja
Lavras já teve oito distritos, e sete deles viraram cidade. Quase todos trocaram de nome no caminho, e a própria Lavras se chamou Lavras do Funil até 1868.

Quem hoje pega a estrada para Ijaci, para Luminárias ou para Ribeirão Vermelho está indo visitar uma cidade que um dia foi Lavras. Em 1911, o município tinha oito distritos, e sete deles são municípios independentes hoje. A conta está na formação administrativa de Lavras registrada pelo IBGE, que guarda, lei por lei, cada separação e cada troca de nome.
A lista de 1911, do jeito que o IBGE registra, dá o tamanho do que Lavras já foi: Lavras, Nossa Senhora do Carmo das Luminárias, Carrancas, Conceição do Rio Grande, Ingaí, Ribeirão Vermelho, Rosário e Santo Antônio da Ponte Nova. Quatro desses nomes sumiram do mapa. As cidades continuam lá.
Antes dos distritos, a própria Lavras tinha outro nome
Vale começar pela sede. Lavras foi elevada à categoria de vila pelo Decreto de 13 de outubro de 1831, e foi instalada em 14 de agosto de 1832, ainda com o nome de Lavras do Funil. Só em 20 de julho de 1868, pela Lei Provincial 1.510, ela virou cidade e passou a se chamar apenas Lavras.
O arraial é bem mais antigo que isso. Segundo o histórico da cidade publicado pela UFLA, que reproduz o texto da Prefeitura de Lavras, o Arraial dos Campos de Sant'Ana das Lavras do Funil foi fundado em 1729 por paulistas vindos da vila de Santana do Parnaíba, liderados por Francisco Bueno da Fonseca. Estavam atrás do ouro e da abertura de caminhos para as minas dos goiases. Em 1760 o povoado já tinha mil habitantes; em 1813 virou freguesia, com seis capelas curadas e 10.612 almas.
Os dois setembros em que a vizinhança inteira trocou de nome
Foram duas leis estaduais, em anos seguidos, e elas reescreveram o mapa da região.
Pela Lei Estadual 843, de 7 de setembro de 1923, o distrito de Nossa Senhora do Carmo das Luminárias passou a se chamar Luminárias, o de Conceição do Rio Grande passou a ser Ijaci e o de Rosário virou Coruja.
No ano seguinte, pela Lei Estadual 860, de 9 de setembro de 1924, Santo Antônio da Ponte Nova virou Itutinga, e Coruja virou Itumirim. Ou seja: em pouco mais de um ano, o mesmo distrito se chamou Rosário, depois Coruja, depois Itumirim.
O que quer dizer o nome de cada uma
Ijaci é termo indígena e significa "filha da Lua", segundo o verbete do município no acervo do IBGE.
Itutinga também vem do tupi e quer dizer "cachoeira grande", por causa de uma cachoeira do rio Grande em terras do município.
Ingaí vem de inga-yba, o nome indígena da árvore do ingá, que era muito comum na região naquele tempo. O mesmo acervo registra ainda uma segunda versão, que ele próprio atribui a historiadores locais, e que fica aqui pelo que é, história contada e não documento: Dom Pedro II, a caminho de Luminárias para visitar um amigo, teria passado pelo arraial de Pinheirinhos, visto a quantidade de ingás e sugerido o nome.
Carrancas ganhou o nome, diz o registro do IBGE, das escavações que os garimpeiros abriram numa serra do município, e que, vistas de longe, formam fisionomias de caras.
E Luminárias leva o nome da Serra das Luminárias, que fica ao lado da cidade. Aqui o próprio registro oficial é honesto quanto à origem, e vale reproduzir a frase como ela está: "segundo contam os mais antigos apareciam pontos luminosos nesta serra, estes de origem desconhecidas até hoje".
Ribeirão Vermelho nasceu com o nome de Porto Alegre
O povoado surgiu em 1886, na margem oposta à foz do ribeirão Vermelho com o rio Grande, em terras de Ana Custódia do Nascimento. Ali aportou o negociante Antônio Lúcio, que ajudou a inaugurar o lugar com a denominação de Porto Alegre. Em 1888, com a construção da estação da Estrada de Ferro Oeste de Minas, o povoado passou a ser conhecido pelo nome que tem até hoje.
O distrito só foi criado em 1901, pela Lei Municipal 315, de 12 de setembro. Quer dizer: a estação chegou antes do distrito, e foi ela que batizou a cidade.
A capela de 1730 que amarra Lavras e Itumirim
Itumirim descende do antigo povoado do Coruja, que fazia parte do distrito de Rosário. E o Rosário nasceu de uma capela: a de Nossa Senhora do Rosário da Cachoeira do Rio Grande, construída em 1730 e administrada pelo Capitão Francisco Bueno da Fonseca, o mesmo paulista que tinha fundado o arraial de Lavras no ano anterior.
Como Lavras foi ficando do tamanho de hoje
Carrancas foi a primeira a sair, pelo Decreto-lei Estadual 148, de 1938, quando foi transferida para outro município.
Depois veio a separação grande. Pelo Decreto-lei Estadual 1.058, de 31 de dezembro de 1943, os distritos de Itumirim, Ingaí, Itutinga e Luminárias deixaram Lavras de uma vez só, para formar o novo município de Itumirim.
Cinco anos depois, a Lei Estadual 336, de 27 de dezembro de 1948, transformou Ribeirão Vermelho em município. A mesma lei emancipou Carrancas.
Faltava Ijaci, que ficou com Lavras por mais 14 anos. A Lei Estadual 2.764, de 30 de dezembro de 1962, emancipou dois de uma vez: Ijaci, que saiu de Lavras, e Ingaí. Na divisão territorial de 31 de dezembro de 1963, Lavras já aparece com um distrito só, o da sede, e é assim que continua.
Os que saíram seguiram se dividindo entre si. Itutinga, por exemplo, se separou de Itumirim pela Lei Estadual 1.039, de 12 de dezembro de 1953, e foi instalada em 1º de janeiro de 1954.
Isso não é história de livro, é história de gente viva
Quem nasceu em Ijaci antes do fim de 1962 nasceu, no papel, em Lavras. Quem é de Ribeirão Vermelho e nasceu antes de 1948, também. E quem é de Luminárias, de Ingaí ou de Itutinga e hoje tem mais de 82 anos alcançou o tempo em que a sede do município era aqui, e em que resolver papel de cartório, registro ou imposto significava pegar a estrada para Lavras.
É por isso que tanta família da região tem parente dos dois lados da divisa sem nunca ter mudado de casa. A divisa é que mudou de lugar.
A Rádio Cultura de Lavras quer contar também a parte que não está em lei nenhuma. Quem guarda certidão antiga, escritura, foto ou simplesmente a lembrança do tempo em que a cidade vizinha ainda era distrito de Lavras pode procurar a redação.
Mais histórias da cidade no Programa Revista da Cidade, na Rádio Cultura de Lavras 96.5 FM, de segunda a sexta, das 11h às 14h.