Quando Lavras tinha trem: o município teve sete estações, e uma delas virou teatro
Duas ficavam na área urbana e outras cinco na zona rural, do Rosas, a 7 quilômetros do Centro, ao Faria, a 25. A primeira abriu em 1º de abril de 1895, no tempo da Oeste de Minas.

Houve um tempo em que a hora certa de uma cidade do interior não vinha do relógio da igreja, vinha do apito do trem. Quem morava perto da linha aprendia a reconhecer a composição pelo barulho antes de ela aparecer, e sabia que, se o trem já tinha passado, era melhor apertar o passo. A estação era o lugar onde a cidade ia buscar quem chegava, despedir-se de quem partia e receber notícia do mundo lá fora.
Lavras viveu isso por quase um século. A estação ferroviária da cidade foi inaugurada em 1º de abril de 1895, pela Estrada de Ferro Oeste de Minas, segundo o levantamento do site Estações Ferroviárias do Brasil, de Ralph Mennucci Giesbrecht, e o histórico da cidade publicado pela UFLA.

Mas a ferrovia já rondava a região antes disso. A primeira estação da Oeste de Minas por estas bandas foi a de Ribeirão Vermelho, aberta em 14 de abril de 1888. Ribeirão Vermelho virou entroncamento, e é por isso que até hoje a cidade vizinha carrega a fama de terra de ferroviário.
O detalhe mais curioso dessa história está na largura dos trilhos. A Oeste de Minas foi construída em bitola de 0,76 metro, a famosa bitolinha, uma das mais estreitas que já rodaram no país. Para efeito de comparação, é menos de um metro entre um trilho e outro. Em 1907, o Ministério da Indústria e Viação autorizou estender essa bitolinha de Ribeirão Vermelho até Lavras, com um terceiro trilho assentado no trecho. A solução parece miudeza técnica, mas resolvia a vida de todo mundo: com o trilho a mais, os trens estreitos que vinham de Barbacena entravam em Lavras sem precisar parar em Ribeirão Vermelho para descarregar tudo e recarregar em outro vagão.

A cidade também não era só ponto de parada. Em 2 de março de 1917 foram inauguradas as oficinas da Oeste de Minas em Lavras, que só entraram em operação de fato em 1920. Oficina de ferrovia era coisa grande: significava emprego, torno, caldeira, fumaça e uma geração inteira de gente que aprendeu ofício ali dentro.
Em 1918 chegou também o ramal que ligava Lavras a Três Corações, e com ele a necessidade de mais uma parada. Foi assim que Lavras ganhou a segunda estação dentro da cidade, inaugurada em 1º de setembro de 1926 com o nome de Estação do Bicame. Em 1936 ela passou a se chamar Estação Costa Pinto, em homenagem ao doutor Antônio da Costa Pinto, médico e político lavrense morto em 20 de julho de 1927.

E, para dar a medida de como o tempo era outro por aqui, vale lembrar que em 1911 Lavras criou uma linha de bonde, o que fazia dela uma das poucas cidades do interior do Brasil a ter esse tipo de transporte na época.

As sete estações do município de Lavras
Depois que esta reportagem foi publicada, leitores procuraram a Rádio Cultura dizendo que Lavras teve mais do que duas estações de trem. Eles têm razão. Duas ficavam na área urbana, e são as que a cidade guardou na memória. As outras cinco eram paradas espalhadas pela zona rural do município, ao longo dos trilhos que seguiam para Três Corações e para Divinópolis. Pelo levantamento do site Estações Ferroviárias do Brasil, de Ralph Mennucci Giesbrecht, são sete no total:
- Lavras (1º de abril de 1895), na linha-tronco. É a estação da Oeste de Minas, abandonada desde 2015.
- Itirapuan (30 de junho de 1923), na linha-tronco, na zona rural, perto do Instituto Adventista de Lavras. Ainda funcionava como estação em 1995, nos derradeiros trens de passageiros da linha, e hoje está em ruínas.
- Rosas (1º de setembro de 1926), no ramal de Três Corações, a cerca de 7 quilômetros da cidade. Teve vila ferroviária, venda, igreja e baile de fim de semana. Hoje está em ruínas.
- Costa Pinto (1º de setembro de 1926), no ramal de Três Corações, aberta com o nome de Estação do Bicame. É hoje o Teatro Municipal João Pereira de Carvalho.
- Faria (1º de setembro de 1926), no ramal de Três Corações, a uns 25 quilômetros da cidade. O prédio virou moradia de uma família e é conhecido como caminho para a cachoeira do Faria.
- Engenheiro Bouscheville (1º de maio de 1966), na linha de Lavras a Divinópolis, aberta com o nome de Andreza, na entrada do pátio da fábrica de cimento. Foi demolida: em 2015 não havia mais nem resto de plataforma.
- Engenheiro Behring (1º de maio de 1966), na linha-tronco, no bairro rural do Prudente, nome pelo qual a estação continua sendo chamada na cidade. É a única ainda em uso, com os trens de carga da FCA.
Há ainda um oitavo nome, e é ele que explica boa parte da divergência de contagem. A estação de Itumirim, aberta em 21 de janeiro de 1897 com o nome de Francisco Salles, ficava em território lavrense: pertenceu a Lavras de 1897 a 1943 e só passou a ser de Itumirim em 1944, com a emancipação do distrito. Quem conta pela geografia de hoje chega a sete. Quem conta pela geografia da época do trem chega a oito.
A ferrovia foi mudando de mão ao longo das décadas, como quase tudo no país. A Oeste de Minas tocou a estação de Lavras até 1931, quando entrou a Rede Mineira de Viação. Depois vieram a Viação Férrea Centro-Oeste, em 1965, e a RFFSA, de 1975 até 1997. No Guia Geral das Estradas de Ferro do Brasil de 1960, a estação de Lavras aparece no quilômetro 392,828 da linha-tronco.
O trem de passageiros resistiu até o início dos anos 1990. Depois disso ficou só a carga, que também acabou. Quem tem mais de 40 anos em Lavras provavelmente ainda alcançou o apito.

A Estação Costa Pinto foi desativada em 1965, na reforma administrativa que criou a Viação Férrea Centro-Oeste. Só que ela não virou ruína. Segundo o registro do IPatrimônio, em 23 de dezembro de 2004 o prédio passou a abrigar o Teatro Municipal João Pereira de Carvalho, na Rua Gustavo Pena, no Centro. Em 2006 a estação e os galpões da antiga rede ferroviária foram tombados como patrimônio cultural de Lavras, pelo Decreto Municipal 6678/2006.

Em 2017 o prédio ainda ganhou uma repintura. O Circuito Ferroviário Vale Verde e o Instituto Cidades restauraram a fachada nas cores originais da RFFSA, que eram bordô escuro, amarelo canário, azul bebê e cinza, com patrocínio de comerciantes da cidade.
A estação de 1895 não teve a mesma sorte. O prédio de 1895, que já vinha bastante alterado ao longo das décadas, ficou vazio de vez quando a linha-tronco foi abandonada, em 2015. O registro do site Estações Ferroviárias do Brasil descreve o saguão sem portas, tomado por pichação e lixo, e os galpões sem telha.

Da bitolinha de 0,76 metro que um dia entrou em Lavras sobraram hoje uns 12 quilômetros no Brasil, entre São João del-Rei e Tiradentes, onde a maria-fumaça ainda faz o trajeto para turista ver. É o mesmo trilho estreito, da mesma Oeste de Minas.
A Rádio Cultura não conseguiu fechar em fonte documental em que ponto exato da cidade ficava cada uma das estações, nem quais eram os horários dos trens de passageiros nas últimas décadas de operação. Quem guardou foto, bilhete, caderneta de ferroviário ou simplesmente a lembrança de ter esperado alguém na plataforma pode procurar a redação. História de cidade se remonta assim, um pedaço de cada vez.
Correção: esta reportagem foi publicada em 9 de agosto de 2026 informando que Lavras teve duas estações de trem, que são as duas da área urbana. Depois que leitores apontaram que havia mais, a Rádio Cultura refez o levantamento nas três linhas férreas que cortam o município e encontrou sete estações, listadas acima. O texto foi atualizado em 10 de agosto de 2026.