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Antes do trem, a região tinha barco a vapor: o porto que deu origem a Ribeirão Vermelho

No fim de 1880, um vapor batizado de "Dr. Jorge" começou a descer 208 km do Rio Grande levando café, fumo e queijo. Em volta do embarque nasceu o arraial do Porto Alegre, e os barcos só foram ancorados de vez depois dos anos 1950.

Por André Rocha · 13/09/2026, 10:07
Direção Geral e de Jornalismo: Erlandson Araujo
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Um barco a vapor de roda na popa navegando num rio de Minas. O Benjamim Guimarães, de Pirapora, é do mesmo tipo dos vapores que desciam o Rio Grande a partir de Ribeirão Vermelho (imagem ilustrativa) · Foto: Nilton A. Figueira/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)
Um barco a vapor de roda na popa navegando num rio de Minas. O Benjamim Guimarães, de Pirapora, é do mesmo tipo dos vapores que desciam o Rio Grande a partir de Ribeirão Vermelho (imagem ilustrativa) · Foto: Nilton A. Figueira/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Todo mundo aqui sabe que Ribeirão Vermelho é terra de ferroviário. O que pouca gente sabe é que, antes de o primeiro trem apitar por lá, a vizinha já tinha outro meio de transporte cortando a paisagem: barco a vapor, com chaminé soltando fumaça e tudo, descendo o Rio Grande.

No século 19, a região de Lavras dependia quase só do lombo do animal para levar e trazer mercadoria. "Tudo que chegava aqui vinha ou por lombo de mula ou pela embarcação a vapor", resumiu Cesar Mori, presidente da ONG Circuito Vale Verde, em reportagem do G1 de 2019. E foi o rio que abriu o caminho.

A ideia nasceu em Lavras, em 1850

Os primeiros estudos para navegar o Rio Grande foram feitos em 1850, a partir de Lavras. Segundo o levantamento publicado pelo portal Memórias de Ribeirão Vermelho, a proposta levada ao Governo da Província de Minas era começar a navegação "na barra do ribeirão Vermelho", o ponto onde o ribeirão encontra o rio. À frente dos estudos estavam o Dr. José Jorge da Silva Penna e o Comendador José Esteves de Andrade Botelho.

O Dr. José Jorge da Silva aparece na lista de Agentes Executivos de Lavras, o cargo que corresponde ao de Prefeito, justamente em 1844 e em 1850, segundo o livro "Lavras, Sua História, Sua Gente", de José Alves de Andrade.

Ele não chegou a ver o sonho andar. Morreu em 5 de fevereiro de 1880, aos 69 anos. Mas deixou o nome no barco: o vapor que veio dos Estados Unidos para inaugurar a linha foi batizado de "Dr. Jorge", em homenagem a ele.

O porto que virou cidade

A navegação foi inaugurada em 18 de dezembro de 1880, segundo registro da Prefeitura de Lavras, e passou a ter viagens regulares em fevereiro de 1881, com uma ida e volta por semana. O trecho era comprido: 208 quilômetros rio abaixo, da barra do ribeirão Vermelho até Capetinga.

Nos barcos iam passageiros, animais e carga de todo tipo. O levantamento de Ribeirão Vermelho cita café, fumo, açúcar, couro e queijo, a produção da roça mineira viajando pela água.

E em volta do ponto de embarque foi crescendo um arraial. O nome dele diz muito sobre o clima daquele tempo: "O Porto Alegre". Foi o primeiro nome de Ribeirão Vermelho, que naquela época ainda pertencia ao município de Lavras.

A estação ferroviária de Ribeirão Vermelho, em 2016. Antes dos trilhos, que chegaram em 1888, o povoado já existia em volta do porto do Rio Grande · Foto: linhares/Mapillary, via Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)
A estação ferroviária de Ribeirão Vermelho, em 2016. Antes dos trilhos, que chegaram em 1888, o povoado já existia em volta do porto do Rio Grande · Foto: linhares/Mapillary, via Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Quando o trem chegou, o barco ganhou reforço

A Estrada de Ferro Oeste de Minas se instalou no Porto Alegre em 1886, e a estação foi aberta em 14 de abril de 1888. Tem um detalhe curioso aqui: segundo o site Estações Ferroviárias do Brasil, ela foi inaugurada com o nome de Lavras. Em 26 de novembro de 1889, o lugar passou a se chamar oficialmente Estação do Ribeirão Vermelho.

O trem não matou o barco. Pelo contrário: em 1889 a própria ferrovia assumiu a navegação, e em 1890 pôs na água dois vapores com rodas na popa e seis pranchões, todos de aço.

A frota foi crescendo. Chegou a ter cinco vapores, cada um com 14 camarotes para 28 passageiros e espaço para 2 mil quilos de bagagem, animais e mercadoria. Tinha também duas lanchas a gasolina, uma para cinco e outra para oito passageiros, batelões que carregavam até 60 toneladas, chatas e saveiros.

Dá para imaginar a cena: o trem chegando de um lado, o vapor atracado do outro, carregadores passando saca de um para o outro na beira do Rio Grande.

O Benjamim Guimarães em 2007, no Rio São Francisco. Repare na roda vermelha na popa: era assim que os vapores da Oeste de Minas se moviam no Rio Grande (imagem ilustrativa) · Foto: Fadbrício da Silva/Wikimedia Commons (CC BY 3.0)
O Benjamim Guimarães em 2007, no Rio São Francisco. Repare na roda vermelha na popa: era assim que os vapores da Oeste de Minas se moviam no Rio Grande (imagem ilustrativa) · Foto: Fadbrício da Silva/Wikimedia Commons (CC BY 3.0)

A última viagem foi atrás de lenha

Em 1931, a navegação foi arrendada à Coutinho & Filhos, de Capetinga. Até 1933, o movimento de passageiros e mercadorias ainda era considerável. Mas os trilhos foram se espalhando, e o rio foi perdendo freguesia.

Em fevereiro de 1945 veio a última tentativa de manter a linha, pela Companhia de Navegação Fluvial do Rio Grande. Na década de 1950, já sob a Rede Mineira de Viação, os barcos só saíam para buscar lenha perto de Ribeirão Vermelho, para abastecer as marias-fumaças. Depois disso, os vapores foram ancorados de vez.

Ou seja: no fim da história, o barco que um dia levou o café da região terminou os dias trabalhando para o trem.

O rio ainda guarda pedaços dessa história

Em junho de 2019, pescadores encontraram um barco soterrado na margem do Rio Grande, em Ribeirão Vermelho. Tinha cerca de dez metros, e as reportagens da época o descreveram como um vapor do século 19, usado para levar passageiros e pequenas cargas. Não foi a primeira vez: moradores contaram que achar embarcação ali é comum, porque ali funcionava o antigo porto. Quando o rio baixa, dá para ver o paredão de pedra onde os barcos atracavam.

Na mesma reportagem, o aposentado Dilvo de Souza Costa lembrou o papel que a navegação teve no fim: "Ela que foi a responsável pelo combustível das marias fumaças". A ONG Circuito Ferroviário se ofereceu para restaurar a embarcação, com a ideia de levá-la para um museu. A Rádio Cultura não conseguiu confirmar se a restauração aconteceu, nem onde o barco está hoje.

Quem quiser ver de perto como era um vapor desses tem um exemplo vivo em Minas. O Benjamim Guimarães, construído em 1913 nos Estados Unidos, fez a linha entre Pirapora e Juazeiro, na Bahia, a partir dos anos 1920. Ele foi restaurado e reinaugurado em Pirapora em 1º de junho de 2025, e é apontado como o único barco a vapor desse tipo em funcionamento no mundo.

Uma coincidência de nome que fica no ar

O nome "Dr. Jorge" deve soar familiar para o lavrense. É o mesmo da Praça Dr. Jorge, a Praça do Gammon, que homenageia o Dr. José Jorge da Silva, advogado nascido em 1810 e morto em 1880, que morou muitos anos em Lavras, como a Rádio Cultura já contou.

As fontes da navegação escrevem o nome com "Penna" no fim. O ano da morte bate, a idade bate e a época bate. Tudo indica que o homem da praça e o homem do barco são a mesma pessoa, mas a Rádio Cultura não encontrou um documento que diga isso com todas as letras.

Quem juntou essa história

O levantamento sobre a navegação é de Alessandro C. Alonso, no portal Memórias de Ribeirão Vermelho, e se apoia no acervo do Museu Bi Moreira, da UFLA, no livro "Sobre Trilhos", de Márcio Salviano Vilela (1998), e nos "Ementários da História de Ribeirão Vermelho" (2003). Também foram consultados o site Estações Ferroviárias do Brasil, o portal ipatrimônio e as reportagens do G1 e do Lavras TV sobre o barco achado em 2019.

Quem tem foto antiga do porto, dos vapores ou da beira do rio em Ribeirão Vermelho, quem ouviu dos avós como era a viagem até Capetinga, ou quem sabe onde foi parar o barco encontrado em 2019, pode procurar a redação da Rádio Cultura. História de cidade se remonta assim, um pedaço de cada vez.

Mais histórias da cidade no Programa Revista da Cidade, na Rádio Cultura de Lavras 96.5 FM, de segunda a sexta, das 11h às 14h.

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