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Biógrafa que leu os diários de Freddie Mercury diz que ele queria sair da estrada: "Odiava fazer turnês"

Lesley-Ann Jones recebeu os cadernos do cantor das mãos de uma mulher que se dizia filha dele. 41 anos depois das duas noites do Queen no Rock in Rio, os diários mostram um artista cansado do palco aos 45 anos. Ela desembarca no Brasil nesta quinta.

Por Kelvin Reis · 08/09/2026, 15:15
Direção Geral e de Jornalismo: Erlandson Araujo
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Biógrafa que leu os diários de Freddie Mercury diz que ele queria sair da estrada: "Odiava fazer turnês"

Nas madrugadas de 12 e 19 de janeiro de 1985, o Queen subiu ao palco da Cidade do Rock e cantou "Love of My Life" com uma plateia que fazia o coro sozinha. Somadas, as duas noites juntaram mais de 600 mil pessoas: os shows começavam na noite anterior e viravam o dia, e é por isso que muita gente até hoje guarda as datas como 11 e 18.

41 anos depois, aquele mesmo Freddie Mercury reaparece por escrito. E o que ele escreveu não combina muito com a imagem de quem parecia feito para o palco.

Os diários chegaram pelas mãos de uma mulher chamada apenas de "B"

A jornalista britânica Lesley-Ann Jones é autora de "Com Amor, Freddie: A Vida e O Amor Secreto de Freddie Mercury", lançado em 2025. O livro tem um diferencial que nenhuma outra biografia do cantor teve: foi construído sobre os diários pessoais de Freddie.

Quem entregou esse material foi uma mulher identificada no livro apenas como "B", que afirma ser filha do cantor. Ela morreu em janeiro deste ano, de câncer, e não chegou a ver o livro emplacar no Brasil. Em entrevista à revista Quem, Lesley-Ann falou sobre isso:

Fico muito triste que a B não tenha podido ver esse impacto. Depois de toda a negatividade que ela sofreu, se ela tivesse visto como este livro e o Freddie foram bem recebidos no Brasil, acho que isso teria restaurado a fé dela.

Lesley-Ann Jones, biógrafa de Freddie Mercury, à revista Quem

"Ele achava ridículo estar se apresentando no palco naquela idade"

A frase mais dura da entrevista é sobre o palco. Segundo a biógrafa, os diários e as conversas com "B" apontam para um artista cansado da estrada muito antes do que o público imaginava. Freddie tinha 45 anos quando morreu, em 1991, e já se achava velho demais para a função.

Ele achava ridículo estar se apresentando no palco naquela idade. Estava cansado e não gostava de fazer turnês; na verdade, odiava fazê-las.

Lesley-Ann Jones, à revista Quem

Não é informação inédita: a autora já havia registrado a mesma avaliação em "Love of My Life", sua primeira biografia do cantor, de 2021. O que muda agora é a origem: desta vez, está escrito pelo próprio Freddie.

A pergunta que a biógrafa fez, e a resposta que não esperava

Lesley-Ann conta que chegou a levantar a hipótese com "B": Freddie poderia ter deixado o Queen, se aposentado das turnês e feito uma apresentação ocasional em casas de ópera de Roma ou da Argentina, a cada dois anos.

A resposta foi seca. "Não, eu discordo. Não acho que ele teria feito isso, porque, para o Freddie, a banda era tudo", respondeu.

Segundo a autora, o segredo da formação com Brian May, Roger Taylor e John Deacon era exatamente o atrito: "Eles brigavam muito. Freddie disse uma vez que, no estúdio, brigavam até pelo ar que respiravam". E todos os quatro assinaram sucessos: não era banda de um compositor só.

A estátua de Freddie Mercury em Montreux, na Suíça, cidade onde ficava o estúdio em que o Queen gravou seus últimos discos · Foto: Exploratorium efimeros/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)
A estátua de Freddie Mercury em Montreux, na Suíça, cidade onde ficava o estúdio em que o Queen gravou seus últimos discos · Foto: Exploratorium efimeros/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Menos estrada, mais estúdio, enquanto a voz aguentasse

A aposta da biógrafa é que o Queen teria seguido o caminho dos Beatles: separados do palco, juntos na sala de gravação. "É provável que o Queen tivesse gravado mais alguns álbuns, enquanto Freddie ainda tinha voz", diz.

E aí entra a observação mais técnica da entrevista, que explica muita coisa sobre o cantor:

Ele forçava muito a voz, cantava com muita intensidade e, quando você exercita um músculo a esse ponto, ele vai se desgastar mais cedo ou mais tarde.

Lesley-Ann Jones, à revista Quem

A autora cita como exemplo as gravações com a soprano espanhola Montserrat Caballé (1933-2018), feitas já com a saúde debilitada.

O Live Aid foi o que devolveu a banda à estrada, e a estrada parou no meio

O calendário ajuda a entender. Em dezembro de 1984, o Queen ficou de fora de "Do They Know It's Christmas?", o single beneficente que reuniu os grandes nomes britânicos do momento. Sobrou mágoa.

Em julho de 1985, meio ano depois do Rock in Rio, a banda foi convidada para o Live Aid e fez a apresentação mais celebrada do festival. Foi essa noite, diz a biógrafa, que convenceu os quatro a voltar à estrada em 1986.

A turnê não foi adiante. Freddie já tinha o diagnóstico de HIV e a saúde não acompanhou.

Foi trágico o que ele passou e o que eles passaram, mas foi ainda mais trágico o que a filha dele passou; ela viu seu pai morrer.

Lesley-Ann Jones, à revista Quem

A biógrafa vem ao Brasil nesta quinta, e é a primeira vez

Lesley-Ann Jones nunca tinha pisado no país. Em 1985, quando o Queen veio ao Rock in Rio, ela era repórter iniciante e ficou de fora da viagem: "Estava lá embaixo na hierarquia. Jornalistas muito mais importantes do que eu vieram cobrir o evento", contou.

Ela é uma das atrações confirmadas da Bienal Internacional do Livro de São Paulo, nesta quinta-feira, 10 de setembro, e promete responder perguntas do público a noite toda.

"Eu sei que Freddie Mercury é um personagem muito amado no Brasil", disse. Quem ouviu 300 mil vozes cantando "Love of My Life" em janeiro de 1985 não vai discordar.

Fontes: entrevista de Lesley-Ann Jones à revista Quem, publicada em 08/09/2026; registros oficiais do Rock in Rio 1985; Wikimedia Commons (imagens).

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