O que Vorcaro falou com Moraes na véspera da prisão: o STF abriu 269 páginas e você pode baixar todas
Mensagens apagadas, um contato salvo como “Alexandre de Moraes BRASILIA” e contratos de R$ 131,3 milhões e R$ 50 milhões com o escritório da mulher do ministro. O Supremo derrubou o sigilo, a Rádio Cultura baixou os 14 documentos e disponibiliza a íntegra aqui. Na terça, o plenário decide se investiga Moraes. Leia você mesmo e tire sua conclusão.

O Supremo Tribunal Federal decide nesta terça-feira (15) se abre investigação contra o ministro Alexandre de Moraes. É uma sessão extraordinária, marcada para as 10h e transmitida pela TV Justiça, e não há precedente na história da Corte: será a primeira vez que o plenário delibera sobre apurar a conduta de um integrante do próprio tribunal.
No centro da sessão está a Petição 16.662, processo que nasceu de um relatório da Polícia Federal de 218 páginas, produzido a partir da análise do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master. O aparelho foi apreendido na operação Compliance Zero, deflagrada em novembro de 2025 para investigar suspeitas de fraude na venda de carteiras de crédito do Master ao BRB, o Banco de Brasília. Vorcaro foi preso na primeira fase, em 18 de novembro de 2025.
O sigilo do material caiu em 1º de setembro, por decisão do ministro André Mendonça. Os documentos estão públicos desde então, e a Rádio Cultura de Lavras os reproduz na íntegra ao final desta reportagem.
O que os documentos dizem
O relatório da PF reproduz conversas de Vorcaro com um contato salvo no celular dele como “Alexandre de Moraes BRASILIA”. Segundo a corporação, o número atribuído ao ministro foi compartilhado com o banqueiro em dezembro de 2023 e depois gravado na agenda.
Parte dessas mensagens foi enviada pelo recurso de visualização única do WhatsApp. Por causa disso, a própria PF registra que em alguns trechos não é possível reconstruir o diálogo inteiro nem conhecer o teor das respostas.
Os anexos incluem dois contratos envolvendo o escritório Barci de Moraes Advogados, ligado a Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro.
O primeiro foi firmado com o Banco Master em janeiro de 2024 e previa 36 parcelas de R$ 3 milhões líquidos, somando R$ 108 milhões líquidos, ou R$ 131,3 milhões brutos, em três anos. Pelo texto, cobria implantação e aprimoramento de programa de compliance, consultoria estratégica em procedimentos perante a Polícia Federal, as polícias civis, o Banco Central, a Receita Federal e o Cade, além de representação do banco em processos judiciais em todas as instâncias.
O segundo, de maio de 2025, envolvia a Viking Participações, também de Vorcaro, no valor de R$ 50 milhões. Há ainda um termo de acordo e dação em pagamento relacionado a esse negócio, com previsão de transferência de ativos.
O que diz o escritório
O escritório Barci de Moraes divulgou nota afirmando que, diante da abrangência do pedido de contratação feito pelo Banco Master, seu setor de compliance solicitou informações ao ministro Alexandre de Moraes, na condição de marido da sócia-diretora, como faz em casos semelhantes.
Ainda segundo a nota, o contrato foi assinado e os serviços prestados porque não havia previsão de atuação no STF nem impedimento legal, já que o ministro nunca havia julgado causa envolvendo o Banco Master. O vínculo teria sido encerrado com a liquidação do banco, em 2025.
Sobre o segundo contrato, o de R$ 50 milhões com a Viking, o escritório afirmou que a proposta não foi aceita e que nada foi assinado.
Quem julga mudou na sexta
O caso teve uma reviravolta processual na última sexta-feira (12). O presidente do STF, Edson Fachin, assumiu a relatoria da Petição 16.662, que até então estava com André Mendonça.
Na decisão, Fachin citou o artigo 13, inciso XV, do Regimento Interno do Supremo e mencionou a possibilidade de o resultado da deliberação atrair o artigo 144, inciso IV, do Código de Processo Civil, que trata de impedimento.
Fachin determinou também a remessa à Presidência das Petições 15.041 e 15.556, ligadas às investigações sobre as fraudes do INSS e sobre o Banco Master, com todos os processos relacionados. Os dois casos ficam paralisados até nova decisão.
A mudança tem efeito prático sobre a sessão desta terça. Cabe ao relator apresentar o relatório dos fatos ao plenário, definir se as questões processuais serão analisadas antes do mérito e votar primeiro.
O que está em disputa
A sessão não começa pelo conteúdo das mensagens. Começa por uma discussão anterior a ele: a validade do próprio relatório da Polícia Federal.
Ministros da Corte questionam o caminho pelo qual o documento foi produzido, sob o argumento de que André Mendonça determinou a apuração sobre um colega sem autorização do plenário. Interlocutores não descartam que o debate seja suspenso por pedido de vista.
Moraes, por sua vez, protocolou despacho com questionamentos à conduta de Mendonça. O prazo para que Mendonça se manifeste sobre esse ponto termina em 21 de setembro, e ainda não há data para análise.
As íntegras, para baixar
Os 14 documentos da Petição 16.662 estão abaixo, na íntegra e em cópia hospedada por esta emissora. Clique para baixar.
Documentos centrais
- Relatório da Polícia Federal sobre o celular de Daniel Vorcaro
- Íntegra das conversas entre Vorcaro e o contato “Alexandre de Moraes BRASILIA”
- Contrato entre Banco Master e Barci de Moraes Advogados
- Termo de acordo e dação em pagamento entre Viking e Barci de Moraes
- Contrato entre Viking Participações e Barci de Moraes
Tramitação do processo
- Despacho que determina o desentranhamento e a abertura de processo autônomo
- Certidão de autuação e distribuição da Petição 16.662
- Despacho que manda a PF identificar a rede de influência de Vorcaro
- Mandado de intimação da PF, com prazo de 72 horas
- Ofício da PF com o envio do relatório ao STF
- Recibo eletrônico da petição da PF, de 27 de agosto de 2026
- Despacho que abre vista à PGR, com prazo de cinco dias
- Termo de vista à Procuradoria-Geral da República
- Decisão que derruba o sigilo e leva o caso ao plenário
Os documentos acima são públicos desde 1º de setembro de 2026, quando o Supremo Tribunal Federal derrubou o sigilo da Petição 16.662. A Rádio Cultura de Lavras baixou os arquivos e os disponibiliza em cópia própria, para leitura direta e sem intermediários. As informações sobre a tramitação foram apuradas nos próprios autos e no noticiário nacional.