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Lavras está remendada de ponta a ponta, e a assinatura do estrago é sempre a mesma

A Rádio Cultura flagrou neste domingo, ao meio-dia, mais uma vala aberta por equipe a serviço da Copasa no cruzamento da Rua Misseno de Pádua com a Avenida Padre Dehon, no Centro. Não é o conserto que revolta: é o remendo malfeito que fica para trás, a rua nova rasgada dias depois do recapeamento e uma companhia que descumpre a própria norma técnica enquanto briga na Justiça para não sair da cidade.

Por Erlandson Araujo · 09/08/2026, 13:17
Direção Geral e de Jornalismo: Erlandson Araujo
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Vala aberta por equipe a serviço da Copasa no cruzamento da Rua Misseno de Pádua com a Avenida Padre Dehon, no Centro de Lavras, neste domingo (9) (Foto e vídeo: Erlandson Araujo/Rádio Cultura de Lavras)

Domingo, meio-dia, Centro de Lavras. No cruzamento da Rua Misseno de Pádua com a Avenida Padre Dehon estava a cena que o vídeo desta página registrou: um caminhão atravessado na faixa de rolamento, um cone solitário, terra vermelha jogada sobre o asfalto, a chapa de ferro tapando o rasgo e o trânsito se espremendo para escapar. Mais uma intervenção de equipe a serviço da Copasa. Sempre mais uma.

E que fique claro desde a primeira linha: esta coluna não é contra o conserto. Rede rompe, e rompimento tem que ser atendido rápido, inclusive no domingo, inclusive na hora do almoço. O que esta cidade não aguenta mais é o que sobra depois que o caminhão vai embora.

Ande por Lavras e conte os retalhos

Escolha o leitor qualquer rua asfaltada de Lavras e tente achar uma que não tenha um retângulo escuro afundado no meio da pista, marcando por onde passou uma vala. É quase impossível. A cidade inteira virou uma colcha de retalhos, e cada retalho desses tem dono.

Não é detalhe estético. É o amortecedor que quebra, a roda que desalinha, a moto que escorrega na borda solta, a poça que se forma no primeiro temporal e o ônibus que sacoleja com gente em pé dentro. É o lavrense pagando, do próprio bolso, a conta de um serviço que ele já paga na fatura todo mês.

Remendo bem-feito quase não se nota: fecha no nível da pista, compacta o reaterro, sela a borda e resiste. O que se vê em Lavras é o oposto. Afunda em semanas, a borda se desfaz, o buraco volta maior do que era antes. E quando volta, quem tapa é dinheiro público, ou seja, de novo o do contribuinte.

O absurdo maior: asfaltar hoje para rasgar amanhã

A sequência que mais indigna é esta. A Prefeitura recapeia uma rua inteira, o morador comemora, tira foto, agradece. Poucos dias depois chega a manutenção corretiva e abre o asfalto novo no meio.

Isso não é fatalidade. É falta de planejamento, e falta de planejamento com dinheiro dos outros tem outro nome: descaso. Antes de recapear, alguém tem que dizer o que está podre por baixo e trocar primeiro. Quando não der para evitar a intervenção depois, o mínimo decente é devolver a faixa inteira recapeada, e não largar um tapa-buraco de dois metros quadrados no meio de uma rua que acabou de nascer.

A norma que a própria companhia escreveu

Aqui não há exigência inventada por jornalista. A Copasa tem norma técnica própria para isso: a T.176/4, que trata de demolição e recomposição de pavimentos, escavação e reaterro de valas. O padrão de como a rua deve ser devolvida ao município está escrito, é da casa e está em vigor.

Ou seja: o problema em Lavras não é ausência de regra. É uma empresa que não cumpre o que ela mesma determinou, numa cidade que se acostumou a não cobrar.

E cobrança funciona. Em Divinópolis, também em Minas, a Copasa refez o asfalto de uma rua depois de ser notificada pela prefeitura de lá. Notificaram, ela refez. Simples assim.

E tem o pano de fundo, que ninguém aqui vai fingir que não existe

Lavras decidiu tirar o saneamento das mãos da Copasa. O Município abriu a Concorrência Pública nº 001/2026 para conceder por 35 anos os serviços de água e esgoto (obras, operação, manutenção, ampliação e gestão comercial) e montou comissão especial só para tocar esse processo.

A companhia não aceitou e foi para a Justiça. Em 31 de julho a Justiça negou dois pedidos dela e manteve o cronograma. 48 horas depois, na véspera da abertura dos envelopes, a licitação foi suspensa por decisões em um mandado de segurança e em um agravo no TJMG, e o edital terá de ser republicado sem data definida.

Então é a isto que o lavrense assiste: de um lado, uma cidade remendada de ponta a ponta, com valas mal fechadas em rua velha e em rua nova; do outro, a mesma empresa gastando fôlego em tribunal para continuar operando um serviço que o município já decidiu entregar a outro.

Quem quer permanecer numa cidade devolve as ruas dessa cidade no nível do asfalto. Quem não consegue nem fechar direito um buraco de dois metros tem pouca autoridade para exigir mais três décadas e meia de contrato.

O que a Rádio Cultura cobra, com nome e prazo

Primeiro: planejamento conjunto. Nenhuma rua recapeada sem que antes se saiba o que será trocado por baixo dela.

Segundo: recomposição no padrão da própria norma, no nível da pista, com reaterro compactado e borda selada. O que afunda em um mês não é serviço, é encenação de serviço.

Terceiro: em rua recém-recapeada, recomposição da faixa inteira. Quem estragou asfalto novo devolve asfalto novo.

Quarto, e este é um recado direto à Câmara Municipal de Lavras: onde estão os vereadores nesta história? Fiscalizar concessionária é função de vereador, está no mandato que o lavrense pagou com o voto. Se já existe lei na cidade disciplinando abertura de vala, prazo de recomposição, garantia do remendo e multa para quem devolve a rua afundada, então ela não está sendo cumprida e a Câmara tem o dever de cobrar. Se não existe, é hora de escrever, porque cidade grande e cidade pequena Brasil afora já legislaram sobre isso.

São homens e mulheres eleitos pelo voto do lavrense para vigiar exatamente este tipo de coisa. Convocar o responsável para explicar, pedir a relação das intervenções feitas nos últimos anos, exigir laudo do que foi recomposto, propor a lei que falta: nada disso depende de autorização de ninguém. Depende de querer. Enquanto o morador engole solavanco todo dia na rua de casa, a pergunta que fica é simples: qual vereador de Lavras já protocolou uma linha sobre os remendos desta cidade?

O espaço está aberto, e vai continuar aberto

A Rádio Cultura vai procurar a Copasa nesta segunda-feira para falar sobre a qualidade das recomposições em Lavras, sobre o cumprimento da norma técnica da própria companhia e sobre a intervenção deste domingo no Centro. A resposta será publicada na íntegra, aqui mesmo, com o mesmo destaque desta coluna.

A emissora vai procurar também a Câmara Municipal e cada um dos vereadores, com uma pergunta só: o que o senhor, o que a senhora já fez a respeito dos remendos de Lavras? Quem responder terá a resposta publicada. Quem não responder também será registrado aqui, com o nome.

Fica o registro, para que ninguém torça o argumento: a disputa da licitação não é o motivo desta crítica. Se não houvesse licitação nenhuma em curso, a cobrança seria exatamente a mesma, porque o buraco na rua do lavrense é o mesmo com qualquer empresa que esteja no contrato.

É lamentável precisar escrever isso num domingo. Mas bastam cinco minutos andando por Lavras para ver que não há exagero nenhum: a cidade está remendada, e a assinatura do estrago é sempre a mesma.

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